Opinião

A Propósito da Tempestade Arterial… Como Otimizar os Resultados de Saúde?

Assisti em modo online, com interesse, à mesa redonda do Congresso Português de Aterosclerose sobre a tempestade arterial, da qual emergiu a importante questão sobre a precariedade dos resultados populacionais do controlo da dislipidemia, face à disponibilidade de excelentes e efetivos fármacos e de apropriadas guidelines práticas. Este défice é, facilmente, aplicável a outras doenças crónicas como a diabetes, a obesidade e a hipertensão.

Foram avançadas razões para esta insuficiência de resultados satisfatórios, como o reduzido tempo de consulta no sector dos CSP, condicionante da impossibilidade de educar os doentes para otimizar a adesão, esta, por sua vez, reconhecida como potencial e importante fator causal, aliado à inércia dos clínicos. Paralelamente, foi aflorada a imprescindibilidade das sociedades/associações profissionais de assumirem um papel mais ativo na condução deste processo para uma melhoria dos resultados. Na sua forma, não discordo destas sugestões, que me parecem óbvias. Mas, na sua substância, não me parece que, isoladamente, possam constituir-se como medidas determinantes de qualquer melhoria deste contexto da prestação de cuidados.

É certo que os tempos de consulta atribuídos à MGF não permitem integrar a componente educacional, que é parte integrante do plano de tratamento global, de qualquer doença crónica. Sem educação terapêutica dirigida, é ilusório assegurar mudanças comportamentais que visem, entre outras coisas, melhorar a adesão às terapêuticas prescritas.

Mas, há também ferramentas que não estão a ser exploradas, pelo menos de forma estruturada e sistemática, como, por exemplo, as consultas coletivas, para doentes com problemas comuns, que a evidência disponível, mostra serem efetivas como suporte incontornável às modificações comportamentais desejadas. Também, considero utópico, que cada médico de MGF (igualmente, aplicável aos médicos hospitalares), individualmente considerado, dentro do seu gabinete, tenha predisposição para enveredar por intervenções educacionais de continuidade, quando, cada doente que vem a seguir, se apresenta com um problema ou uma doença distinta do anterior.

Esta prática, por descontínua e não estruturada, não permite obter os resultados desejados. Pergunto e sugiro, se não seria viável, ao nível institucional de cada CS, organizarem-se equipas multidisciplinares dedicadas para tratar o doente crónico com comorbilidades, em regime rotacional de, por exemplo, um ano. Esta prática evitaria a colisão com o axioma de que em matéria de CSP, o MGF tem de abordar o doente nas suas vertentes longitudinal e transversal, que subscrevemos. Também, é pertinente considerar a expansão e integração em rede de outros stakeholders intervenientes, diretos ou indiretos neste processo, como p.e. psicólogos, nutricionistas e farmacêuticos, estes últimos, assegurando uma maior proximidade ao doente no seu contexto da vida real facilitadora de uma monitorização mais efetiva das persistências e da adesão às medicações farmacológicas.

Esta seria uma via de maximizar a eficiência da prestação dos cuidados, viabilizando adicionais suportes diferenciados e a implementação das consultas coletivas, promovendo o foco nos resultados dos doentes. A participação de psicólogos comportamentais deve ser encarada como essencial para garantir a adesão do doente ao seu plano global de tratamento, que não deve abranger apenas a medicação oral.

Relativamente ao papel das sociedades profissionais, a sua relevância deve exprimir-se, sobretudo, no domínio do controlo e disponibilização da informação científica atualizada e materializada na divulgação das guidelines. Na medida em que, não sendo entidades prestadoras de cuidados, não se vislumbra qual o papel interventivo, no domínio operacional da prestação de cuidados, onde, de facto, reside o cerne da questão.

Também, poderiam definir guidelines específicas, socorrendo-se dos recursos da saúde digital, visando a interface CSP/C. Hospitalares, com protocolos de comunicação e interação recíprocos e em tempo real, para gerir momentos de maior vulnerabilidade dos doentes a complicações, quer na pós-alta hospitalar do internamento ou consultas hospitalares, quer nas referenciações dos CSP às especialidades.

Artigo de opinião da autoria de João Guerra, Internista, Mestre Gestão da Doença Crónica -ISCTE

Artigo presente na edição impressa n.º 125 do Jornal Médico

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