Opinião

Manuel Oliveira Carrageta: A reforma e os seus desafios

Leia o artigo de opinião da autoria de Manuel Oliveira Carrageta, presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, sobre os desafios da entrada na reforma e como colmatar determinadas tendências com a manutenção de uma vida ativa.

No século XX foi criada uma nova categoria social, a dos reformados, uma importante instituição das sociedades modernas, associada ao envelhecimento contemporâneo. Passou a existir um novo ciclo social, com três grupos com funções específicas bem estabelecidas: os estudantes, para estudar, os trabalhadores, para trabalhar e os reformados para descansar.

Devido ao envelhecimento demográfico, que se continua a acentuar, a sociedade vai ter que se adaptar à nova realidade de haver poucas pessoas de meia-idade para produzir riqueza para todos. As pessoas idosas no futuro, vão ser obrigadas a alternar o trabalho, a meio-tempo, com o apoio à família, ter de voltar a estudar para se atualizar, e, conforme, os gostos e o poder económico, passar períodos intercalados a descansar ou a viajar. Com o extraordinário aumento da esperança de vida e a baixa da natalidade, a reforma poderá não continuar a ser mais sinónimo de ferias prolongadas.

Uma grande parte da nossa identidade social é construída com base na profissão. Com a reforma, a perda do estatuto profissional pode gerar um grande vazio identitário. Muitos reformados têm o sentimento de ter perdido a importância social. É frequente cerca de seis meses a dois anos após a reforma sofrerem uma crise existencial. A partir de certa altura, essas férias prolongadas, podem começar a saturar e surgem sentimentos de vazio que podem tornar a vida difícil de suportar. A pessoa reformada sente que a sua utilidade e o reconhecimento do seu valor no seio da sociedade são postos em causa e a vida pode deixar de fazer sentido. Muitos entram em verdadeira depressão.

Como referimos anteriormente, a reforma que é geralmente esperada com agrado, suscita muitas vezes alguma angústia. Corresponde a uma grande rotura com a vida ativa, pelo que é altamente aconselhável que a passagem à reforma deva ser preparada. Para o homem costuma ser mais complicado que para a mulher. O homem geralmente investiu numa só tarefa, no seu trabalho, enquanto a mulher tem geralmente que se encarregar de tarefas múltiplas. Idealmente, em vez de uma paragem brusca, deve-se reduzir progressivamente a atividade profissional e começar simultaneamente com outras atividades a que poderemos chamar de reformado. Por outras palavras, as atividades da reforma devem ser iniciadas ainda no decurso da vida ativa profissional. É fundamental continuar a ser ativo e manter uma função útil para a família, para uma associação ou uma fundação, etc., contribuindo para o bem da sociedade e, sabe-se hoje, sobretudo, para o próprio.

Um dos grandes receios das pessoas reformadas, com base em exemplos que viram acontecer em colegas, é vir a sofrer, poucos anos depois, de declínio cognitivo e mesmo de demência. Vários estudos mostram que cada ano de trabalho suplementar reduz o risco de desenvolver doença de Alzheimer em aproximadamente 3%. Por exemplo, se atrasarmos o momento da reforma dos 60 para os 65 anos, podemos observar uma diminuição do risco de demência de 15%, o que é considerável para uma doença tão grave. Este benefício observa-se nas profissões que exigem significativa exigência intelectual e pode não ser aplicável aos trabalhos penosos e monótonos, sem nenhum espaço para a iniciativa. É bem conhecido que passar o tempo de reforma no sofá a ver televisão, isolado, sem relacionamentos sociais e um estilo de vida ativo, não favorece o envelhecimento saudável.

Em particular, as pessoas idosas devem manter-se social e mentalmente ativas. Conviver com a família e os amigos, fazer trabalho voluntário colaborando em causas sociais, conhecer novas pessoas. Manter o cérebro ativo, como ler, fazer exercícios mentais (palavras cruzadas, sodoku, etc.), aprender novas línguas, estudar novos assuntos, viajar, ler, frequentar cursos culturais, constituem estratégias benéficas para a saúde do cérebro.

Um grupo internacional de especialistas, identificou outros fatores de risco importantes para o desenvolvimento de demência, sendo que quatro deles estão estreitamente ligados também à saúde do coração: hipertensão arterial, obesidade, diabetes e tabagismo. Hoje sabemos que o que é bom para o coração é também bom para o cérebro. Quando se avalia a influência do estilo de vida no desenvolvimento de doença do coração ou do cérebro, destacam-se a alimentação e a atividade física, não esquecendo também um sono reparador, que é também um pilar do envelhecimento saudável.

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