Victor Gil: “A grande prioridade da SPC é conhecer a realidade para poder transformá-la”

“Mais do que uma bandeira, é um programa de ação”. É desta forma que o presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), Victor Gil, define aquela que é a grande prioridade do seu mandato (que termina em maio de 2021): “Conhecer a realidade para poder transformá-la”. De acordo com o cardiologista, isso faz-se “com base na melhor informação – que vem da interpretação da ciência que fazemos – e na melhor formação, decorrente das ações de educação médica contínua”.

 

JORNAL MÉDICO (JM) | Dada a situação que atravessamos, impõe-se a questão: Como avalia o impacto da pandemia de Covid-19, nomeadamente durante o Estado de Emergência, na prestação de cuidados aos doentes cardíacos?

VICTOR GIL (VG) | Tem sido por fases… A primeira fase de confinamento – em março e abril – foi muito complicada, porque os doentes tinham muito receio de se dirigir às urgências e houve uma diminuição significativa de urgências gerais e das urgências cardiovasculares. Registou-se uma diminuição drástica de atendimentos por enfarte agudo do miocárdio (EAM), mas certamente que os eventos cardiovasculares continuaram a ocorrer, não tendo a sua prevalência diminuído.

Das pessoas que não recorreram aos serviços de saúde na fase aguda e que sobreviveram ao EAM, o que vai acontecer é que terão uma diminuição da massa cardíaca que se vai refletir em insuficiência cardíaca (IC) a médio/longo prazo.

Foi feito um esforço enorme para manter o acompanhamento das situações crónicas de IC, nomeadamente, mas na realidade a perturbação na prestação de cuidados a doentes crónicos foi enorme e neste momento estamos a tentar recuperar. E, nessa tentativa de recuperação, fica sempre alguma coisa para trás… Não esquecendo que, mesmo antes da pandemia, já tínhamos uma situação de atraso no acesso a consultas, exames auxiliares de diagnóstico e cirurgias.

Em relação às intervenções cirúrgicas, muito em particular, a resposta já estava longe de ser a apropriada, com doentes a falecer em lista de espera. A este respeito, os números em alguns centros de cirurgia cardíaca do Serviço Nacional de Saúde (SNS) são obscenos.

 

JM | O recurso à teleconsulta foi inevitável. Que mais-valias reconhece a esse modelo?

VG | Nesta fase, em que já retomei a atividade assistencial presencial, mantenho algumas teleconsultas, na medida em que este é um modelo que se adequa e que certamente continuará a coexistir com as consultas presenciais. Vejo vantagens nesse formato misto.

A teleconsulta é útil, por exemplo, para pedido de exames ou receituário. Até numa primeira consulta se pode colocar a hipótese de teleconsulta, no sentido em que aproveitamos para uma avaliação prévia com pedido de exames e consoante os resultados podemos priorizar para consulta presencial. Neste aspeto, pode ser complementar. Mesmo não dispensando a primeira consulta o exame físico, pode ser precedida por um contacto deste género.

Em caso de descompensação clínica, a consulta presencial impõe-se.

 

JM | Houve, no entanto, um acelerar da digitalização da Saúde, que era, em certa medida, desejável…

VG | É preciso ver que a relação médico-doente continua a ser essencialmente humana e que a Medicina é muito mais do que a interpretação de sintomas e a prescrição de uma receita/medicamento. A Medicina é qualquer coisa que se constrói na interação entre dois seres humanos. A tecnologia digital é útil enquanto ferramenta facilitadora dessa comunicação e interação. Nunca numa lógica de substituição, mas de aliviar o médico de tarefas mais mecânicas e burocráticas, de forma a ter tempo para aquilo que é a clínica e a relação com o doente.

 

JM | No rescaldo do Dia Mundial do Coração, como avalia o impacto das ações promovidas pela SPC neste âmbito? A prevenção continua a ser a chave no combate às doenças cardiovasculares (DCV), que configuram a principal causa de morte em Portugal?

O combate contra as DCV continua a ser essencial, apesar de ao longo dos últimos anos termos visto uma redução na mortalidade por estas doenças (quase ultrapassada pelo cancro). Efetivamente, o controlo dos fatores de risco é a chave e está na base de tudo.

 

JM | Dos principais fatores de risco – hipertensão arterial (HTA), colesterol, tabagismo, sedentarismo, obesidade – há algum que atualmente se apresente como mais preocupante, na realidade portuguesa?

O consumo de tabaco entre os jovens é uma realidade em que temos que atuar. Destacaria ainda o sedentarismo. Portugal continua a ser um país com baixíssimos níveis de prática de atividade física, ainda que este seja um aspeto que tem vindo a melhorar nos últimos anos.

Além disso, importa ser muito rigoroso no controlo e tratamento dos fatores de risco identificados e diagnosticados.

 

JM | Quais os desafios que a especialidade de Cardiologia enfrenta, atualmente a nível nacional e global, e que outros vislumbra num futuro próximo? 

VG | A Cardiologia de hoje nada tem que ver com a Cardiologia anterior aos anos 80. Existem uma série de técnicas e tratamentos desenvolvidos, entretanto. Há um balanço não necessariamente fácil entre inovação e a sustentabilidade/capacidade financeira.

Hoje em dia, a Cardiologia de intervenção faz coisas absolutamente extraordinárias. A própria cirurgia cardíaca avançou de forma incrível, com recurso a técnicas cada vez menos invasivas. A inovação farmacológica também é espantosa, nomeadamente na IC, com fármacos a conseguirem um prolongamento da sobrevivência até oito anos.

O grande desafio continua a ser o acesso. Continuam a morrer doentes em listas de espera para cirurgia e isso é inaceitável.

 

JM | Como presidente da SPC, qual a principal “bandeira” da sua direção? Que marca gostaria de deixar no sentido de uma melhoria do exercício clínico dos cardiologistas portugueses?

A grande bandeira da SPC é conhecer a realidade para a poder transformar, com base na melhor informação e na melhor formação. Informação que venha da interpretação da ciência que fazemos e formação através das ações de educação médica continuada. Mais do que uma bandeira, é um programa de ação, onde se insere, por exemplo, o lançamento do estudo PORTHOS, um grande estudo que visa conhecer a realidade da IC em Portugal.

 

Medição rápida da arritmia em destaque na Semana de Consciencialização da Fibrilhação Auricular

A Fundação Portuguesa de Cardiologia  – em conjunto com a com a Atrial Fibrillation Association  e a Arrhytmia Alliance – assinala o inicio da Semana de Consciencialização dando a conhecer a campanha global  que apela à deteção da arritmia através de um procedimento de medição no pulso com a duração de apenas 30 segundos.

“Detetar, Proteger, Corrigir e Aperfeiçoar” é o mote da Semana de Consciencialização para a Fibrilhação Auricular (FA), com início a 16 de novembro. Esta campanha pretende incentivar o diagnóstico precoce da fibrilhação auricular através de uma verificação rápida no pulso.

Em Portugal,  cabe à Fundação Portuguesa de Cardiologia o papel de sensibilização e apoio a esta campanha, em que a deteção precoce e o controlo da fribrilhação auricular são fundamentais.

Para Manuel Carrageta, Presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, O diagnóstico atempado da Fibrilhação Auricular pode revelar-se fundamental na prevenção de complicações como AVCs, insuficiência cardíaca, demência ou mesmo morte súbita. Apesar de estar associada à redução da qualidade de vida e a internamentos, sobretudo a partir de determinada idade, esta arritmia pode ser controlada através da gestão de comportamentos, hábitos de vida e medicação. Quanto mais cedo a detetarmos, maior a probabilidade de a controlarmos. Daí a importância deste tipo de campanhas”.

A fibrilhação auricular carateriza-se por uma arritmia cardíaca crónica que é responsável por 20 a 30 % dos acidentes vasculares cerebrais isquémicos. Tem maior prevalência em Portugal a partir dos 40 anos, com 2.5% dos portugueses afetados, a partir dos 65 anos, uma em cada dez pessoas terá desenvolvido esta arritmia.

A sua deteção precoce e controlo são fundamentais para prevenir os acidentes vasculares cerebrais e facilitar uma melhor qualidade de vida nas faixas etárias com maior risco.

A partir dos 65 anos é importante fazer uma avaliação do ritmo cardíaco e das pulsões de forma regular, o que pode ser feito de forma simples através da autoavaliação do pulso.

O diagnóstico atempado ajuda a reduzir o risco de acidente vascular cerebral significativamente com a utilização da terapêutica anticoagulante, embora a arritmia possa causar um decréscimo da qualidade de vida, a intervenção terapêutica no tempo certo ajuda a controlar a arritmia e a melhorar a qualidade de vida do doente.

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