A otimização terapêutica em doentes de alto e muito alto risco cardiovascular

A importância do controlo de fatores de risco cardiovascular esteve em análise nas XXI Jornadas de Hipertensão Arterial e Risco Cardiovascular de Matosinhos, em que começou por ser apresentado um caso clínico adaptado da prática clínica pela médica interna de Medicina Interna Dra. Ana Isabel Lopes.

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Terapêutica de associação de atorvastatina com ezetimiba na abordagem do risco cardiovascular

As vantagens de associar terapêuticas hipolipemiantes, nomeadamente atorvastatina com ezetimiba, em doentes com dislipidemia, estiveram em foco na intervenção do Professor da Faculdade de Medicina do Porto e Coordenador da Unidade de Farmacovigilância do Porto, Professor Dr. Jorge Polónia, no âmbito da sessão “O papel das associações no controlo lipídico”, que decorreu a 29 de outubro, com o patrocínio Bial, no âmbito das XXI Jornadas de Hipertensão Arterial e Risco Cardiovascular de Matosinhos.

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ESTeSC-IPC estuda impacto da COVID-19 no sistema cardiovascular

A Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Politécnico de Coimbra (ESTeSC-IPC) é uma das instituições dinamizadoras do estudo “Covid-19 effects on ARTErial StIffness and vascular AgiNg” (CARTESIAN), que vai avaliar as consequências, a longo-prazo, do SARS-CoV-2 no sistema cardiovascular.

Promovido pela Association for Research into Arterial Structure and Physiology, o projeto reúne investigadores de 52 centros de referência (sediados em 25 países distintos), que trabalharão em parceria na pesquisa da relação entre a Covid-19 e o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. “Efetivamente, diversos estudos preliminares têm identificado efeitos importantes do SARS-CoV-2 nas artérias e coração, tornando-se absolutamente essencial perceber se estes efeitos persistem ao longo do tempo e de que forma poderão ser atenuados ou corrigidos apropriadamente”, explica Telmo Pereira, coordenador do centro de referência CARTESIAN da ESTeSC-IPC.

As conclusões do estudo permitirão “desenvolver estratégias adequadas de gestão clínica da infeção”, acrescenta o docente. Percebendo o impacto da Covid-19 no sistema cardiovascular, será possível elaborar planos de tratamento mais eficazes, bem como identificar previamente pacientes suscetíveis de desenvolver doença grave, por exemplo.

Ao longo dos próximos meses, a equipa liderada por Telmo Pereira (que integra também os docentes da ESTeSC-IPC Joaquim Castanheira e Armando Caseiro) vai avaliar cerca de uma centena de indivíduos anteriormente infetados com o SARS-CoV-2. Os dados recolhidos serão depois inseridos na base de dados multinacional do CARTESIAN.

Todos os exames – avaliação da rigidez arterial por tonometria, ecografia do coração e artéria carótida e colheita sanguínea – serão realizados nas instalações da ESTeSC-IPC, em duas fases de avaliação: a primeira nos primeiros três a seis meses após a infeção, e a segunda até um ano após a doença. Qualquer pessoa (desde que previamente infetada com SARS-CoV-2) pode voluntariar-se para participar no estudo, realizando os exames (não invasivos) de forma segura e gratuita.

 

 

 

João Sequeira Duarte é o novo presidente da Sociedade Portuguesa de Aterosclerose

A Sociedade Portuguesa de Aterosclerose (SPA) tem um novo presidente: trata-se de João Sequeira Duarte, cuja lista venceu as eleições para o triénio 2021-2013, realizadas em dezembro.

O novo presidente dirigiu-se a todos os sócios pedindo para que continuassem a colaborar com a direção e corpos sociais para o crescimento da sociedade. João Sequeira Duarte destaca dois pontos essenciais do seu mandato: Por um lado, a contribuição para a formação pós-graduada na área da aterosclerose, em particular dos associados da SPA, para continuar a aumentar o seu número, e a participação na vida e nas atividades da sociedade, em colaboração com os corpos sociais e o conselho científico; e, por outro, a intervenção na população em geral, para aumentar a literacia em aterosclerose e melhorar a qualidade de vida.

No plano de atividades da SPA para 2021 estão ainda contempladas outras atividades: o presidente eleito quer ouvir os associados e contar com a sua participação, e a organização do 29º Congresso Português de Aterosclerose em articulação com os membros do conselho científico e os associados.

“O congresso  é seguramente a atividade mais significativa que a SPA realizamos anualmente e estamos certos que será um contributo relevante para a formação pós-graduada nesta área onde a multidisciplinaridade é a norma e onde eu próprio, endocrinologista de formação, tenho o gosto e a honra de participar”, afirma João Sequeira Duarte.

Outros pontos essenciais do mandato da nova direção são tornar a comunicação da SPA com o exterior mais diversificada e participada, substituir as pesquisas bibliográficas que foram asseguradas trimestralmente nos últimos anos por artigos comentados de publicação recente na área da aterosclerose, assegurar a diversidade e multidisciplinaridade na manutenção da página web e do Facebook e a publicação quadrimestral de uma newsletter. Além disto, estão também programados breves conteúdos temáticos em vídeo para disponibilizar no site, com o presidente cessante, Teixeira Veríssimo, agora no conselho científico, a dar início a este contributo.

O mandato conta ainda com planos em permanente atualização, como a captação de novos sócios, o registo Português de Hipercolesterolemia Familiar centralizado no INSA, o registo Europeu de Aterosclerose e a EAS Lipid Clinic Network.

 

 

Nuno Bettencourt e as JAC2021: A fatia mais importante da luta contra a doença cardiovascular está nas mãos da MGF

A “fatia mais importante ” da luta contra a doença cardiovascular está nas mãos da “mãe” de todas as especialidades, a Medicina Geral e Familiar. É assim que, em entrevista ao Jornal Médico, Nuno Bettencourt, coorganizador das Jornadas de Actualização Cardiológica para Medicina Geral e Familiar (JAC2021) contextualiza o evento, cuja 32.ª edição decorreu de 13 a 15 de janeiro. 

JORNAL MÉDICO (JM) | Qual a importância da jornadas no contexto do diagnóstico da Doença Cardiovascular no âmbito da Medicina Geral e Familiar?

Nuno Bettencourt (NB) | As Jornadas de Actualização Cardiológica da Medicina Geral e Familiar já vão na sua 32ª edição e são, desde a sua fundação, um importante espaço de partilha do conhecimento e de troca de experiências. A doença cardiovascular é uma das principais causas de morbilidade e mortalidade do país e agrega várias especialidades, desde a Medicina Geral e Familiar à Cardiologia, passando pela Medicina Interna e mesmo especialidades cirúrgicas. Apesar de serem doenças potencialmente fatais e com grande impacto socioeconómico, têm habitualmente evolução lenta e, são, maioritariamente, associadas a fatores de risco potencialmente modificáveis. Assim, a fatia mais importante da luta contra a doença cardiovascular está nas mãos da especialidade que é a “mãe” de todas as outras: é à Medicina Geral e Familiar que compete o rastreio cardiovascular, identificando fatores de risco modificáveis, agindo sobre eles e diagnosticando doença cardiovascular estabelecida que necessita de orientação subsequente. É nesta articulação entre os cuidados de saúde primários e os cuidados especializados hospitalares que as jornadas se inserem. Tem sido um prazer e um privilégio poder fazer parte desta equipa que, ao longo destas últimas décadas, se tem dedicado a minimizar esse potencial “gap” na continuação de cuidados em medicina cardiovascular. Várias gerações têm sabido aproveitar as jornadas para melhorarem continuamente a qualidade dos cuidados de saúde que prestamos à nossa população. E a dinâmica única que vemos associada a estas jornadas demonstram bem que, apesar da respeitosa idade, as Jornadas continuam dinâmicas, renovadas e de boa saúde!

 

JM | Quais são as novidades que as jornadas vão trazer em termos de atualização do conhecimento para a Medicina Geral e Familiar?

NB| Na elaboração dos programas de cada nova edição das Jornadas tentamos seguir dois eixos primordiais: 1. ir de encontro ao que é solicitado pelos colegas de medicina geral e familiar nos inquéritos realizados na edição prévia e 2. incidir sobre as novidades e evoluções científicas com potencial impacto prático na clínica quotidiana da medicina geral e familiar. Seguindo estas linhas orientadoras, destaco nesta edição as atualizações em fibrilação auricular e avaliação para a prática desportiva, ambas com novas guidelines publicadas há 4 meses e o estudo da suspeita de doença coronária em idades pediátricas, um tema que vinha sendo solicitado nos últimos inquéritos. Ainda nesta linha de foco dirigido na atualização e em orientações eminentemente práticas, destaco a “Actualização Cardiológica Flash: O essencial de 2020: os estudos que não posso ignorar” – durante a qual o Prof. Francisco Sampaio tentará fazer uma súmula do que mais relevante se passou neste último ano [e com potencial para alterar a nossa prática clínica] – e a nova sessão de “perguntas práticas/respostas rápidas” em que abordaremos de forma simples e objetiva alguns temas com aplicação eminentemente prática.

 

JM | Qual o impacto que a pandemia teve na realização das jornadas?

NB| A pandemia é uma realidade à qual nos fomos tendo de adaptar, ao longo da preparação das JAC2021. Desde cedo nos apercebemos que não poderíamos manter o modelo e o local tradicional das Jornadas porque, mesmo que houvesse uma melhoria das condições sanitárias, não estaríamos em condições de manter a segurança necessária num evento desta dimensão. Ainda assim, durante muito tempo considerámos que poderíamos vir a ser capazes de realizar um evento híbrido com alguma participação presencial no Edifício da Alfândega do Porto e um forte componente virtual. A chegada da segunda vaga nos finais de outubro de 2020, fez-nos perceber que teríamos de optar por um evento totalmente virtual, como acabámos por fazer. Apesar destas dificuldades, estamos orgulhosos em ter conseguido manter estas tradicionais jornadas, nas suas datas habituais, e com a forte adesão mais uma vez registada. Neste momento, com cerca de 1400 inscritos, estamos encaminhados para bater o record de participação das Jornadas. É muito reconfortante, após este ano tão difícil, sentir o interesse dos colegas em participar e em interagir connosco.

 

JM | Como é feita a ligação dos especialistas em Medicina Geral e Familiar com a Doença Cardiovascular?

NB| A abordagem da continuação de cuidados na doença cardiovascular é um dos principais objetivos destas Jornadas. A doença cardiovascular é apenas uma das muitas doenças a que a Medicina Geral e Familiar se dedica, mas é certamente aquela que mais impacto tem no seu quotidiano, ocupando a sua prevenção e tratamento uma parte substancial dos atos médicos realizados em cuidados de saúde primários. Um dos principais fatores de sucesso na prestação de cuidados de saúde nesta área é uma boa articulação entre a Medicina Geral e Familiar e os cuidados especializados hospitalares. É por isso que um bom entendimento entre a especialidade de Medicina Geral e Familiar e a especialidade de cardiologia, usando uma linguagem comum e vias de referenciação bidirecionais práticas e funcionais é tão importante. A pensar nisso, uma das primeiras sessões da edição deste ano das Jornadas, que terá como palestrante a Prof. Cristina Gavina, é dedicada especificamente a esta articulação entre especialidades e à sua otimização, em busca da excelência na continuação de cuidados na área cardiovascular.

 

JM | Outra questão que ache relevante na dinâmica Doença Vascular e Medicina Geral Familiar no contexto das Jornadas

NB|Esta dinâmica “Doença cardiovascular – Medicina Geral e Familiar”, como bem refere, é uma das mais relevantes nos cuidados de saúde primários. Talvez por isso, e por se sentir uma necessidade de formação específica dedicada à MGF, há muito tempo que tem vindo a ser sugerido à nossa organização, a realização de cursos dedicados a temas específicos da área cardiovascular. Estes cursos dedicados permitiriam formações práticas, mas mais aprofundadas do que aquilo que é possível nos 3 dias das Jornadas. Motivados por estas sugestões, criámos este ano o “Programa de actualização e valorização pessoal” dedicado à MGF: Trata-se de um programa de ensino virtual / “e-learning” constituído por módulos independentes, mas complementares, abordando diferentes áreas do conhecimento. Este ano foram lançados os 3 primeiros cursos (1. Electrocardiografia, 2. Hipocoagulação Oral e 3. Dislipidemia), aos quais se irão juntar outros ao longo dos próximos anos. Pretendemos que estes cursos, que foram já submetidos a um processo de certificação europeia venham a funcionar como complemento das Jornadas e que contribuam para uma formação de qualidade e para a valorização profissional dos colegas de MGF em áreas específicas da Medicina Cardiovascular.

 

Sociedade Portuguesa de Cardiologia promove Fórum Inovação e Sustentabilidade, Futilidade e Redundância

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) vai realizar no próximo dia 15 de janeiro o Fórum SPC, que irá abordar a inovação e sustentabilidade, desperdício e ecologia, futilidade e redundância e criação de valor.

A iniciativa é organizada pela Coordenação Científica da SPC e pela Academia Cardiovascular. O Fórum será moderado pelo presidente da SPC, Victor Gil, e pelo presidente-eleito, Lino Gonçalves e terá como comentadores o coordenador científico da SPC, Jorge Ferreira e a diretora da academia cardiovascular da SPC, Cristina Gavina.

O evento é dirigido à comunidade científica, mas também a todos os que intervêm no complexo sistema de saúde, incluindo gestores e decisores.

“Pensar em temas com esta abrangência, numa fase em que o discurso é dominado pela pandemia, é um desafio acrescido, mas consideramos essencial continuar a refletir e repensar a organização, a modelização dos sistemas, a implementação e a monitorização da qualidade clínica, em defesa da qualidade dos cuidados de saúde”, refere Victor Gil, presidente da SPC.

Será possível assistir ao Fórum através das plataformas abertas do Youtube e Facebook da Sociedade Portuguesa de Cardiologia e interagir através do zoom.

 

 

Congresso Português de Cardiologia 2021 conta com a presença de especialistas internacionais

O Congresso Português de Cardiologia 2021 (CPC 2021) que irá decorrer de 30 de abril a 2 de maio, vai incluir a participação de especialistas internacionais. Nos pormenores da programação revelados até ao momento, constam os nomes de 3 especialista de renome na área da imagem e doença valvular: Robert O. Bonow, Rebecca Hahn e Philippe Pibarot.

Robert O. Bonow é o editor principal da JAMA Cardiology, um dos editores principais do Braunwald’s e relator principal das guidelines americanas de doença valvular continuamente desde 1996.

Rebecca Hahn é atualmente uma das maiores autoridades mundiais em ecocardiografia, sendo a responsável por várias das guidelines da American Society of Echocardiography, do Echo Core Lab da Cardiovascular Research Foundation e investigadora de vários ensaios de referência na área da intervenção percutânea aórtica, mitral e tricúspide.

Philippe Pibarot é um investigador dedicado à patologia valvular aórtica. Foi o seu grupo que descreveu a estenose aórtica paradoxal há cerca de dez anos.  Faz parte da equipa de investigadores dos ensaios PARTNER e investigador principal do ensaio PROGRESSA, que estuda a patogénese da estenose aórtica.

O CPC 2021 vai ser realizado em versão virtual, mas manterá o modelo multidisciplinar das sessões com a participação das diferentes áreas de subespecialização da cardiologia, bem como outras sociedades científicas nacionais, como a medicina interna, intensivismo e a medicina geral e familiar.

 

Jornadas de Atualização Cardiológica de 2021 vão premiar casos clínicos

A 32ª edição das Jornadas de Atualização Cardiológica da Medicina Geral e Familiar, que irá decorrer entre os dias 13 e 15 de janeiro de 2021 no Centro de Congressos da Alfândega do Porto, vai incluir pela primeira vez os prémios “Prof. Carlos Ramalhão”, que irão distinguir o melhor caso clinico e o melhor trabalho de investigação na área cardiovascular em cuidados de saúde primários.

Nesta edição renovada, irão ainda existir outras novidades como a App das Jornadas, que facilitará uma maior interatividade entre os participantes, e um programa exclusivo de formação online com acreditação internacional, dedicado à medicina cardiovascular na vertente da Medicina Geral e Familiar.

Durante os três dias do congresso, várias abordagens vão ser apresentadas, como o desporto na doença cardiovascular, a fibrilação auricular e a doença cardiovascular na criança. Os problemas da clínica diária, o papel da Medicina Geral e Familiar na insuficiência cardíaca e a insuficiência cardíaca em cuidados primários vão ser também objeto de reflexão durante o evento.

Sob o lema Time to Connect, esta edição das Jornadas de Atualização Cardiológica da Medicina Geral e Familiar terá também uma versão Live Streaming, possibilitando o acompanhamento online.

Victor Gil: “A grande prioridade da SPC é conhecer a realidade para poder transformá-la”

“Mais do que uma bandeira, é um programa de ação”. É desta forma que o presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), Victor Gil, define aquela que é a grande prioridade do seu mandato (que termina em maio de 2021): “Conhecer a realidade para poder transformá-la”. De acordo com o cardiologista, isso faz-se “com base na melhor informação – que vem da interpretação da ciência que fazemos – e na melhor formação, decorrente das ações de educação médica contínua”.

 

JORNAL MÉDICO (JM) | Dada a situação que atravessamos, impõe-se a questão: Como avalia o impacto da pandemia de Covid-19, nomeadamente durante o Estado de Emergência, na prestação de cuidados aos doentes cardíacos?

VICTOR GIL (VG) | Tem sido por fases… A primeira fase de confinamento – em março e abril – foi muito complicada, porque os doentes tinham muito receio de se dirigir às urgências e houve uma diminuição significativa de urgências gerais e das urgências cardiovasculares. Registou-se uma diminuição drástica de atendimentos por enfarte agudo do miocárdio (EAM), mas certamente que os eventos cardiovasculares continuaram a ocorrer, não tendo a sua prevalência diminuído.

Das pessoas que não recorreram aos serviços de saúde na fase aguda e que sobreviveram ao EAM, o que vai acontecer é que terão uma diminuição da massa cardíaca que se vai refletir em insuficiência cardíaca (IC) a médio/longo prazo.

Foi feito um esforço enorme para manter o acompanhamento das situações crónicas de IC, nomeadamente, mas na realidade a perturbação na prestação de cuidados a doentes crónicos foi enorme e neste momento estamos a tentar recuperar. E, nessa tentativa de recuperação, fica sempre alguma coisa para trás… Não esquecendo que, mesmo antes da pandemia, já tínhamos uma situação de atraso no acesso a consultas, exames auxiliares de diagnóstico e cirurgias.

Em relação às intervenções cirúrgicas, muito em particular, a resposta já estava longe de ser a apropriada, com doentes a falecer em lista de espera. A este respeito, os números em alguns centros de cirurgia cardíaca do Serviço Nacional de Saúde (SNS) são obscenos.

 

JM | O recurso à teleconsulta foi inevitável. Que mais-valias reconhece a esse modelo?

VG | Nesta fase, em que já retomei a atividade assistencial presencial, mantenho algumas teleconsultas, na medida em que este é um modelo que se adequa e que certamente continuará a coexistir com as consultas presenciais. Vejo vantagens nesse formato misto.

A teleconsulta é útil, por exemplo, para pedido de exames ou receituário. Até numa primeira consulta se pode colocar a hipótese de teleconsulta, no sentido em que aproveitamos para uma avaliação prévia com pedido de exames e consoante os resultados podemos priorizar para consulta presencial. Neste aspeto, pode ser complementar. Mesmo não dispensando a primeira consulta o exame físico, pode ser precedida por um contacto deste género.

Em caso de descompensação clínica, a consulta presencial impõe-se.

 

JM | Houve, no entanto, um acelerar da digitalização da Saúde, que era, em certa medida, desejável…

VG | É preciso ver que a relação médico-doente continua a ser essencialmente humana e que a Medicina é muito mais do que a interpretação de sintomas e a prescrição de uma receita/medicamento. A Medicina é qualquer coisa que se constrói na interação entre dois seres humanos. A tecnologia digital é útil enquanto ferramenta facilitadora dessa comunicação e interação. Nunca numa lógica de substituição, mas de aliviar o médico de tarefas mais mecânicas e burocráticas, de forma a ter tempo para aquilo que é a clínica e a relação com o doente.

 

JM | No rescaldo do Dia Mundial do Coração, como avalia o impacto das ações promovidas pela SPC neste âmbito? A prevenção continua a ser a chave no combate às doenças cardiovasculares (DCV), que configuram a principal causa de morte em Portugal?

O combate contra as DCV continua a ser essencial, apesar de ao longo dos últimos anos termos visto uma redução na mortalidade por estas doenças (quase ultrapassada pelo cancro). Efetivamente, o controlo dos fatores de risco é a chave e está na base de tudo.

 

JM | Dos principais fatores de risco – hipertensão arterial (HTA), colesterol, tabagismo, sedentarismo, obesidade – há algum que atualmente se apresente como mais preocupante, na realidade portuguesa?

O consumo de tabaco entre os jovens é uma realidade em que temos que atuar. Destacaria ainda o sedentarismo. Portugal continua a ser um país com baixíssimos níveis de prática de atividade física, ainda que este seja um aspeto que tem vindo a melhorar nos últimos anos.

Além disso, importa ser muito rigoroso no controlo e tratamento dos fatores de risco identificados e diagnosticados.

 

JM | Quais os desafios que a especialidade de Cardiologia enfrenta, atualmente a nível nacional e global, e que outros vislumbra num futuro próximo? 

VG | A Cardiologia de hoje nada tem que ver com a Cardiologia anterior aos anos 80. Existem uma série de técnicas e tratamentos desenvolvidos, entretanto. Há um balanço não necessariamente fácil entre inovação e a sustentabilidade/capacidade financeira.

Hoje em dia, a Cardiologia de intervenção faz coisas absolutamente extraordinárias. A própria cirurgia cardíaca avançou de forma incrível, com recurso a técnicas cada vez menos invasivas. A inovação farmacológica também é espantosa, nomeadamente na IC, com fármacos a conseguirem um prolongamento da sobrevivência até oito anos.

O grande desafio continua a ser o acesso. Continuam a morrer doentes em listas de espera para cirurgia e isso é inaceitável.

 

JM | Como presidente da SPC, qual a principal “bandeira” da sua direção? Que marca gostaria de deixar no sentido de uma melhoria do exercício clínico dos cardiologistas portugueses?

A grande bandeira da SPC é conhecer a realidade para a poder transformar, com base na melhor informação e na melhor formação. Informação que venha da interpretação da ciência que fazemos e formação através das ações de educação médica continuada. Mais do que uma bandeira, é um programa de ação, onde se insere, por exemplo, o lançamento do estudo PORTHOS, um grande estudo que visa conhecer a realidade da IC em Portugal.

 

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