HeartMate: CHUC implanta primeiro “coração artificial”

O Serviço de Cirurgia Cardiotorácica e Transplantação de Órgãos Torácicos (CCTOT) do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra (CHUC) implantou recentemente o seu primeiro “coração artificial”, o HeartMate. Trata-se de uma nova opção terapêutica para doentes em insuficiência cardíaca terminal e não candidatos a transplantação cardíaca, nesta unidade hospitalar.

“Existem outros dispositivos de assistência cardíaca, mas o HeartMate, sendo portátil e intracorpóreo, permite ao doente ter uma capacidade funcional e autonomia próximo do normal. Este dispositivo aspira o sangue do ventrículo esquerdo e injeta-o diretamente na aorta ascendente, o doente apenas tem de recarregar e substituir as baterias que mantêm esta ‘bomba’ a funcionar”, explica o diretor do serviço de CCTOT, David Prieto, em comunicado enviado.

A cirurgia foi liderada pelo diretor do serviço, David Prieto, em colaboração com Gonçalo Coutinho e Carlos Branco e o apoio de uma equipa de médicos do Hospital Universitário de Bellvitge, Barcelona, Espanha. Destaca-se, também, o trabalho conjunto desenvolvido com a UTICA (Unidade de tratamento de insuficiência Cardíaca Avançada), do Serviço de Cardiologia

David Prieto refere que “embora o Serviço de CCTOT seja aquele que tem o maior número de transplantes cardíacos em Portugal, nem sempre a implantação de um coração de um dador é a melhor solução para esta doença tão complexa e debilitante”.  Adianta, ainda, que no CHUC “são realizados, por ano, cerca de 20 transplantes cardíacos e enquanto alguns doentes aguardam por um coração compatível, outros poderão agora receber um “coração artificial” e beneficiar desta nova opção terapêutica”.

Prótese valvular feita à medida do coração implantada pela primeira vez em Portugal

Uma equipa do Hospital CUF Tejo realizou, pela primeira vez em Portugal, a substituição da válvula cardíaca tricúspide por uma prótese feita à medida exata do coração do doente, através de cateterismo cardíaco, um procedimento minimamente invasivo.

“Esta é a primeira vez que se faz no nosso país a substituição de uma válvula tricúspide completamente personalizada por via percutânea”, indicam os cardiologistas da CUF Ruben Ramos e Duarte Cacela, que lideraram a equipa que procedeu a esta intervenção.

A prótese valvular foi construída após um estudo detalhado do coração do doente que necessitava desta intervenção. “A realização de um AngioTAC, prévio, permitiu estudar minuciosamente os detalhes anatómicos do coração do doente, efetuando-se medições muito precisas das estruturas cardíacas, permitindo desenhar uma prótese única, customizada e adaptada especificamente ao coração deste doente”, explica Ruben Ramos. O processo de construção da prótese demorou cerca de 8 semanas e foi realizado na Alemanha.

“A válvula tricúspide é apelidada, no meio médico, como a válvula esquecida porque, habitualmente, é a menos intervencionada”, refere Ruben Ramos, justificando este facto, por durante “muitos anos, se ter julgado que a válvula tricúspide era um mero espectador de outras patologias cardíacas, valvulares ou não. Contudo, e sobretudo na última década, provou-se que a insuficiência valvular tricúspide é um importante preditor de mortalidade nas pessoas com doenças das válvulas mitral e aórtica (as doenças valvulares mais comuns) e nas doenças do músculo cardíaco, o miocárdio”.

Por outro lado, Duarte Cacela refere que “os sintomas de insuficiência tricúspide são mais insidiosos no seu aparecimento, levando a um diagnóstico tardio. Acresce, ainda, o facto de a insuficiência tricúspide estar, frequentemente, associada a doença concomitante de outras válvulas ou estruturas cardíacas, cujas manifestações são mais agudas ou exuberantes e que acabam, assim, por receber uma maior atenção médica; e, ainda, o facto de haver um insuficiente aperfeiçoamento das ferramentas de diagnóstico disponíveis para avaliação das estruturas do lado direito coração”.

Ruben Ramos, justifica que “os resultados da cirurgia convencional na válvula tricúspide parecem ser menos bons que os das outras válvulas e o próprio risco cirúrgico, em doentes frequentemente muito frágeis e com múltiplas comorbilidades, pode ser muito alto ou até proibitivo”, destacando que “esta última barreira está agora a ser ultrapassada através desta técnica de substituição valvular totalmente percutânea”.

Por último, Duarte Cacela refere que o procedimento realizado “permite oferecer aos doentes portugueses o que de mais avançado e inovador existe a nível mundial, constituindo em Portugal um avanço no tratamento dos doentes com insuficiência tricúspide, melhorando a sua qualidade de vida”.

Estima-se que mais de 85% da população tenha algum grau de insuficiência tricúspide. A progressão da doença é influenciada pela idade e género. Em pessoas com mais de 70 anos a prevalência da doença tricúspide moderada e grave atinge cerca de 1,5% nos homens e 5,6% nas mulheres.

COVID-19: Estudo dinamarquês confirma ligação entre vacina da Moderna e raros problemas cardíacos

A vacina da Moderna contra a COVID-19 apresenta um pequeno risco de provocar problemas cardíacos, mas sem consequências graves, de acordo com um estudo publicado na revista científica British Medical Journal (BMJ), que usou como amostra toda a população dinamarquesa.

“A vacinação [com a Moderna] está associada a um maior risco de miocardite ou pericardite em dinamarqueses, principalmente na faixa dos 12-39 anos”, resumem os autores em comunicado a que a agência Lusa teve acesso.

Estas conclusões estão em concordância com estudos anteriores que levaram várias autoridades de saúde, incluindo as de França e Dinamarca, a suspender a utilização da vacina da Moderna nos mais jovens. A Islândia suspendeu para todos os adultos.

Este trabalho é o primeiro realizado à escala da população de um país inteiro, estando a Dinamarca — com cerca de 5,8 milhões de habitantes —na vanguarda da recolha e da utilização de dados de saúde pública.

Segundo o estudo, os riscos de miocardite ou pericardite parecem três a quatro vezes maiores em vacinados com a Moderna, no mês seguinte à vacinação, do que nos com a Pfizer.

A vacina da Pfizer, “está associada a um maior risco de miocardite ou pericardite” nas mulheres, notam os investigadores.

No entanto, insistem no facto de os problemas cardíacos continuarem a ser raros, inclusive nos menores de 40 vacinados com a Moderna, uma vez que engloba apenas cerca 0,005% dessa faixa etária.

Os autores do estudo salientam, ainda, que os problemas permaneceram ligeiros na maior parte do tempo e nenhuma morte ou paragem cardíaca foi observada em vacinados com miocardite ou pericardite.

APIC alerta para excessos durante época natalícia

“Este Natal dê um presente ao seu coração”. É este o nome da campanha desenvolvida pela Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC) para alertar a população para a importância de cuidar do coração. Pretende relembrar os portugueses de que devem ter cuidado com os habituais excessos durante a época natalícia.

“Sobretudo nesta época festiva, existe uma tendência para serem cometidos alguns excessos alimentares e verifica-se uma redução de alguns hábitos mais saudáveis, contudo é importante que os cuidados regulares com o coração se mantenham”, afirma o presidente da APIC, Eduardo Infante de Oliveira.

E acrescenta: “A época natalícia pode ser um bom pretexto para fazer algumas mudanças no seu estilo de vida, optando por uma alimentação equilibrada, pela prática de exercício físico, mesmo que apenas 10 minutos por dia, e evitando situações de stress e o consumo de álcool e de tabaco.”

Risco “muito raro” de miocardite e pericardite após vacinação contra COVID-19

A Agência Europeia de Medicamentos (EMA) concluiu hoje que o risco de miocardite e pericardite é “muito raro” após a vacinação contra a COVID-19, com as vacinas da Pfizer/BioNTech e Moderna (assentes na tecnologia do RNA mensageiro), confirmando os benefícios dos fármacos.

“O Comité de Avaliação do Risco em Farmacovigilância da EMA avaliou dados recentes sobre o risco conhecido de miocardite e pericardite após vacinação com as vacinas contra a COVID-19 Comirnaty [do consórcio farmacêutico Pfizer/BioNTech] e Spikevax [da Moderna]” tendo verificado que “o risco para ambas as condições é globalmente muito raro”, indica o regulador europeu em comunicado a que a agência Lusa teve acesso.

A EMA explica que a estrutura avaliou “dados recentes sobre o risco conhecido de miocardite e pericardite após vacinação” com estas vacinas baseadas no RNA mensageiro, tendo em conta “dois grandes estudos epidemiológicos europeus” com dados do sistema nacional de saúde francês e do registo nórdico.

O Comité de Avaliação do Risco em Farmacovigilância concluiu que “até uma em cada 10.000 pessoas vacinadas pode ser afetada” por estas condições inflamatórias do coração, que apresentam sintomas como falta de ar, batimentos cardíacos irregulares e dores no peito.

“Além disso, os dados mostram que o risco acrescido de miocardite após a vacinação é mais elevado nos homens mais jovens”, assinala a EMA na nota à imprensa, assinalando que o risco de miocardite e pericardite já consta na informação do produto para estas duas vacinas.

Apesar de estas reações serem muito raras, “podem desenvolver-se apenas alguns dias após a vacinação e ocorreram principalmente no prazo de 14 dias […] com maior frequência após a segunda vacinação”.

António Conceição: “A grande maioria dos sobreviventes de AVC, na prática, são ‘entregues’ à MGF”

O presidente da Portugal AVC – União de Sobreviventes, Familiares e Amigos, António Conceição, em entrevista ao Jornal Médico, considera que o papel do especialista em Medicina Geral e Familiar (MGF) é “fundamental” na gestão e acompanhamento do doente com AVC. Afirma, ainda, que “a grande maioria dos sobreviventes de AVC, na prática, são ‘entregues’ à MGF”.

Jornal Médico (JM) | De que forma é que a Portugal AVC — União de Sobreviventes, Familiares e Amigos ajuda as pessoas que já sofreram um AVC?

António Conceição (AC) | A Portugal AVC presta ajuda aos sobreviventes e seus familiares e/ou cuidadores de variadas formas, porque, no AVC, cada situação é verdadeiramente única. No entanto, sintetizaria em 3 grandes áreas, que nos parecem as mais necessitadas e estão na origem da nossa existência. A informação é rigorosa científica e técnica, mas o mais acessível possível ao comum dos cidadãos. É prestada, por exemplo, através do nosso site (https://www.portugalavc.pt/) e das redes sociais, ou, inclusive em papel, no Guia do Sobrevivente e do Cuidador, sempre de distribuição gratuita. A representatividade, o levar a voz dos sobreviventes e cuidadores junto das entidades oficiais e da comunicação social. Porque, pelo menos nos assuntos que nos dizem respeito, temos que ser ouvidos. A ajuda mútua. Diariamente nos chegam as mais variadas questões, através de todos meios (telefone, email, redes sociais, etc.), e damos uma resposta a todas. Mas também queremos estar fisicamente próximos dos sobreviventes de AVC, nos Grupos de Ajuda Mútua (GAMs). Que já existem em múltiplos locais do território nacional, do Minho ao Algarve e Madeira, e estão em contínuo crescimento. São grupos muito direcionados para a fase pós-aguda, e sobretudo crónica. Têm em comum o ser espaço de partilha, formação pela positiva e mesmo convívio, que dá o “conforto” de não se sentir sozinho e da (re)socialização sem constrangimentos. Sempre livres, gratuitos, e sem compromisso de espécie alguma.

JM | Conte um pouco do seu percurso. O que o levou a criar a Associação? Já conta com quantos membros?

AC | A minha “ligação” ao AVC vem simplesmente pelo facto de ser sobrevivente de um forte Acidente Vascular Cerebral, aos 41 anos, que após uma boa recuperação e reabilitação, ainda me deixou com notórias sequelas para a vida. A minha área profissional não tinha nada que ver com a saúde. Porém, sentindo também as dificuldades que referi, e a ausência de uma associação prevalente mente de sobreviventes e que os representasse, juntamente com outras pessoas, há 5 anos fundámos a Portugal AVC. Os membros da associação, incluindo já cerca de um milhar de associados – que espontaneamente, se quiseram associar, porque nunca colocamos como condição para usufruir da nossa ação, nem sequer perguntamos – estão já em todos os distritos, regiões autónomas e mesmo na emigração.

JM | Como é que as pessoas se podem associar? Porque é que devem fazê-lo?

AC | Podem associar-se de forma muito simples, em www.portugalavc.pt/associar-me , em menos de 2 minutos. Obviamente é, antes de mais, uma forma de partilhar a nossa causa, de ajudar mesmo que simbolicamente, no fundo de dar ainda mais força aos objetivos.

JM | Quais os principais objetivos da Portugal AVC — União de Sobreviventes, Familiares e Amigos?

AC | Muito genericamente, a nossa missão assenta em dois pilares fundamentais, que consideramos profundamente unidos: a promoção e a participação em iniciativas que visem contribuir para a prevenção do AVC e suas consequências, ou seja, dito de forma simples, mas muito direta, não é por nos ter acontecido, que nós aceitamos que outros passem pela mesma “experiência”, antes pelo contrário; a contribuição para dar resposta às necessidades sentidas pelos sobreviventes de AVC, seus familiares, cuidadores, e outros, como já expliquei.

JM | Têm em vista formular parcerias com profissionais de saúde? Se sim, com quais?

AC | Os profissionais de saúde podem e fazem parte da nossa associação, incluindo da Direção e dos outros Órgãos Sociais. São um esteio fundamental da nossa ação, a começar pelo rigor científico e terapêutico da informação que transmitimos, até ao equilíbrio e ponderação de diferentes posições, que procuramos que estejam sempre presentes na mesma. Essa complementaridade de pontos de vista, é uma grande riqueza para nós. De facto, todos os profissionais da saúde, em especial das várias áreas que podem ter a ver com o AVC, são muito considerados pela Portugal AVC, e estamos sempre disponíveis para o diálogo e a colaboração, quer individualmente, quer com as sociedades científicas, associações profissionais ou outras entidades congéneres. Embora, a rigorosa independência e equidistância, e mesmo o evitar hipotéticas injustiças de avaliação, não nos permita aceitar protocolos com o profissional A ou B, a unidade de saúde X ou Y, por exemplo. Mas, repito, merecem muito respeito e admiração todos os que, seriamente, trabalham nesta vasta área.

JM | Que iniciativas têm previstas para a prevenção do AVC?

AC | Como já disse, estamos sempre abertos à colaboração, à organização conjunta, ou outras formas de criar sinergias, em muitas iniciativas com esta finalidade. Acontece, e queremos que aconteça cada vez mais. Das que partem da nossa parte, destacava uma entre elas, a campanha “O AVC vai à Escola”. Em que, à parte primordial e absolutamente prioritária da sensibilização para a prevenção e para o conhecimento dos sinais de alerta, sempre a cargo de profissionais de saúde, se alia, geralmente com a presença de um ou mais sobreviventes de AVC, a sensibilização para a existência de uma vida pós AVC e para a educação para a diferença e as eventuais limitações. É uma iniciativa que tem tido muito bem acolhimento, particularmente entre os alunos, até porque o AVC é uma realidade que toca muitas famílias.

JM | Quais é que são as principais dificuldades sentidas pelas pessoas que já sofreram um AVC e os seus familiares/cuidadores?

AC | Claro que o AVC, sendo um evento de saúde de instalação súbita, imprevisto, que mesmo quando tratável tem uma janela temporal muito curta e em que todos os segundos podem decidir o curso de uma vida, só por si, pode provocar um forte abalo e uma terrível confusão, inclusive em outros membros da família e próximos. Diz-se com muita propriedade, que todos “sofreram” um AVC. Claro que, pelo menos um diretamente, mas todos foram seriamente afetados. Acresce ainda que, nunca tendo sido uma “doença (só) de velhos”, atualmente, parece que as pessoas atingidas em idades jovens, em plena vida ativa, vão sendo cada vez mais. Em Portugal, na fase aguda (quando o AVC acontece), o tratamento dispensado – pese ainda algumas exceções – é de boa qualidade, em muitos casos no sentido de quase reverter ou diminuir significativamente as potenciais sequelas. Mas, é depois que as disparidades aumentam significativamente, e que uma reabilitação coordenada, multidisciplinar, atempada, sem limites de tempo estandardizados, no sentido de ser obtida a maior eficácia possível, não chega à maioria de sobreviventes (e, consequentemente, familiares). Já para não falar em pessoas “apenas” com sequelas não visíveis (como as cognitivas, ou o cansaço crónico, por exemplo), que têm ainda mais dificuldade em ver reconhecida a sua situação. Em particular, à medida que vai chegando a fase crónica, é comum sobreviventes de AVC e familiares sentirem que são abandonados à sua sorte, num período já de si difícil, muitas vezes de consciencialização que a sua vida mudou, com as depressões e outros problemas psicológicos tão presentes. Acresce a tal ausência de informação, que pode vir já desde o hospital, aliada a uma maior fragilidade das pessoas…

JM | Como vê o papel da Medicina Geral e Familiar (MGF) na gestão da recuperação?

AC | É fundamental e crucial! A grande maioria dos sobreviventes de AVC, na prática, são “entregues” à MGF. E isso acontece, em boa parte do país, apenas com uma carta – mesmo essa, muitas vezes, escrita apenas quase só reproduzindo a nota de alta, e depois lida na diagonal. É imperioso que se estabeleça um diálogo bidirecional, se criem canais de comunicação para utilização as vezes que for necessário, entre os diferentes serviços de saúde. Uma parte da diminuição da sensação de abandono, a que aludi, pode começar logo aí! Porque a recuperação, e, sobretudo, a reabilitação – que são dois termos que não são sinónimos – é diversa em cada situação. Que, repito, pode ter de ser multidisciplinar, incluindo a saúde mental. Sem tempos preestabelecidos. Parafraseando a figura maior na luta com o AVC em Portugal, o Prof. José Castro Lopes, Prémio Nacional de Saúde 2019, “A reabilitação não é uma esmola, mas um direito! Se preciso for, durante toda a vida!”. De facto, assim é. Porque também é fundamental assegurar o máximo de funcionalidade, possibilitando a vida pós AVC com a qualidade possível. E essa é uma função que está, em boa parte, a cargo da Medicina Geral e Familiar (MGF).

JM | Considera que atualmente os Cuidados de Saúde Primários (CSP) estão capacitados para apoiar um sobrevivente de AVC?

AC | Se falássemos só da qualidade e dedicação dos recursos humanos, até poderíamos, em muitos casos e realisticamente, dizer que sim. Mas a dificuldade começa logo em todos os constrangimentos com que trabalham, que dificulta muito a sua atuação. E há aspetos que têm de dar passos muito importantes. A criação de uma consulta do sobrevivente de AVC, periódica, a exemplo do que já acontece – e bem! – para outras patologias, ainda que apenas para utentes referenciados, parece-me um passo muito importante a dar. É certo que o AVC pode ter diferentes causas, algumas já abrangidas pelas tais patologias, mas é um evento demasiado complexo, que pode exigir acompanhamento permanente, antes de mais para evitar que se volte a repetir. Estamos a falar tão só da 1.ª primeira causa de morte e do 1.º motivo de incapacidade em Portugal!  É indispensável falarmos também, por exemplo, da existência e da qualidade da já referida reabilitação multidisciplinar, também nos Cuidados de Saúde Primários (que está muito longe de ser só fisioterapia, e mesmo esta deveria ser com a especialização neurológica). Tem de se caminhar nesse sentido, e não é um custo, mas um investimento, com retorno! São só mais dois exemplos que demonstram que ainda há muito caminho a fazer no apoio aos sobreviventes de AVC, também nos Cuidados de Saúde Primários…

JM | Enquanto sobrevivente de AVC, que conselhos deixa a quem está a passar por um processo de recuperação? E aos familiares/ cuidadores destes doentes?

AC | Para a recuperação, provavelmente o sobrevivente de AVC precisará muito dos profissionais de saúde, da sua competência, e, particularmente nos primeiros meses, de cuidados atempados. A reabilitação, ou seja, a capacidade de voltar a uma vida o mais plena possível, depende também muito de nós. Porque, quaisquer que sejam as sequelas, com o AVC a vida não cessa; quando muito, adequa-se! É um dos lemas da Portugal AVC. Por isso, mesmo que às vezes seja difícil, tente manter um espírito positivo, e descubra novas maneiras de fazer as mesmas ou outras coisas: estará a contribuir para a sua plena reabilitação! Aos familiares/cuidadores, que, eventualmente de modo diferente, também sofreram o mesmo AVC, cabe participar neste esforço, com um otimismo moderado, alguma dose acrescida de paciência, em especial nos primeiros meses. Mas também favorecendo esse esforço, ajudando a (re)adquirir a própria independência, se possível logo a partir das atividades básicas da vida diária, o menos possível com “coitadinhos”. Porque continua a ser uma pessoa, com os seus direitos e deveres, e “funções” atribuídas (ainda que adaptadas) na família e na sociedade!

Uso de aspirina: um fator de risco independente para o desenvolvimento de insuficiência cardíaca

O uso de aspirina é comum e está associado a um risco acrescido de insuficiência cardíaca (IC) em 26% em pessoas com pelo menos um fator de risco para a condição. Esta é a conclusão de um estudo publicado no ESC Heart Failure (Mujaj B, Zhang ZY, Yang WY, et al. ESC Heart Fail. 2021) uma revista da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC). Os fatores de risco incluíam o tabagismo, obesidade, tensão arterial elevada, colesterol elevado, diabetes, e doenças cardiovasculares.

“Este é o primeiro estudo a relatar que entre os indivíduos com pelo menos um fator de risco de IC, aqueles que tomavam aspirina tinham mais probabilidade de desenvolver posteriormente a doença do que aqueles que não usavam o medicamento”, salientou o autor do estudo, o Prof. Doutor Blerim Mujaj, da Universidade de Friburgo, Alemanha. “Embora os resultados careçam de confirmação, sugerem uma potencial ligação entre a aspirina e a IC que precisa de ser esclarecida, acresentou.

O impacto da aspirina na IC é controverso. Este estudo visou avaliar a sua relação com a incidência de IC em pessoas com e sem doença cardíaca e avaliar se a utilização do medicamento está relacionada com um novo diagnóstico de IC nas pessoas em risco.

A análise incluiu 30.827 indivíduos em risco de desenvolver IC que foram inscritos da Europa Ocidental e dos EUA no estudo HOMAGE. O risco de desenvolver IC foi definido como a presença de um ou mais dos seguintes fatores: tabagismo, obesidade, hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes e doenças cardiovasculares. Os participantes tinham igual ou superior a 40 e não apresentavam risco de IC na baseline. O uso de aspirina foi registado na inscrição e os participantes foram classificados como utilizadores ou não utilizadores. Os participantes foram acompanhados para a primeira incidência de IC fatal ou não fatal que exigiu hospitalização.

A idade média dos participantes era de 67 anos e 34% eram mulheres. Na baseline, um total de 7.698 participantes (25%) estavam a tomar aspirina. Durante o follow-up de 5,3 anos, 1.330 participantes desenvolveram IC.

Os investigadores avaliaram a associação entre o uso de aspirina e a incidência de IC após o ajuste para outros fatores de risco e encontraram uma associação independente do uso de aspirina a um risco acrescido de 26% de diagnóstico de novo de IC

Para verificar a consistência dos resultados, os investigadores repetiram a análise depois de combinarem utilizadores e não utilizadores de aspirina para fatores de risco de IC. Nesta análise comparativa, a aspirina foi associada a um risco acrescido em 26% de um novo diagnóstico de IC.A análise foi repetida depois de excluir os doentes com antecedentes de doença cardiovascular. Em 22.690 participantes (74%) livres de doenças cardiovasculares, a utilização de aspirina foi associada a um aumento de 27% do risco de incidência de IC.

A este respeito, o autor comentou: “Este foi o primeiro grande estudo a investigar a relação entre o uso de aspirina e a incidência de IC em indivíduos com e sem doença cardíaca e com um ou mais fatores de risco. Nesta população, o uso de aspirina esteve associado à incidência de IC, independentemente de outros fatores de risco”.Contudo, o Prof. Doutor Blerim Mujaj advertiu: “São necessários grandes ensaios multinacionais aleatorizados em adultos em risco de IC para verificar estes resultados. Até lá, as nossas observações sugerem que a aspirina deve ser prescrita com cautela nos doentes com IC ou com fatores de risco para a doença”.

Hospital da Cruz Vermelha reforça área da Cardiologia

O presidente da comissão executiva do Hospital da Cruz Vermelha (HCV), Francisco Ramos, anunciou que a unidade vai atingir o equilíbrio financeiro em 2024 e que nos próximos quatro anos será feita uma aposta nas suas áreas de excelência, entre as quais a Cardiologia.

“Queremos que o hospital funcione baseado no que faz melhor, mantendo a lógica de hospital de prestígio, com uma dimensão não muito grande, onde se possa manter um bom ambiente de trabalho e um bom ambiente para as pessoas que nos visitam”, afirmou.

Francisco Ramos explicou que o objetivo é apostar na estrutura interna, nomeadamente nas áreas de excelência do hospital: Cardiologia, Cirurgia Cardíaca, Ortopedia, Cirurgia Bariátrica e Urologia assim como no retomar do transplante renal.

“Ainda não conseguimos ultrapassar os efeitos negativos da pandemia”, admitiu, salientando que o hospital tem tentado criar condições para não perder profissionais, situação que acabou por ocorrer desde 2019, tendo inclusive agora melhorado as condições de remuneração de entrada dos enfermeiros.

Com a nova estrutura acionista o hospital também muda um pouco, embora mantendo-se hospital privado terá uma elevada vertente social, “dando atenção aos doentes do SNS e também aos da Misericórdia de Lisboa”.

O presidente da comissão executiva adiantou, ainda, que está também em curso um protocolo com a junta de freguesia de S. Domingos de Benfica para criar condições especiais para “os vizinhos” da unidade.

Cardiologistas partilham conhecimento sobre tratamento das lesões coronárias calcificadas

A Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC) vai promover a iniciativa formativa Day at the Cath Lab (D@CL), dedicada ao tema “Lesões coronárias calcificadas”, a 26 de novembro, no Hospital de Braga.

O objetivo é fomentar a aquisição e a partilha de conhecimento entre os profissionais com interesse em lesões coronárias calcificadas, num ambiente informal, prático e de proximidade.

“O recurso a uma técnica mais invasiva para tratamento das lesões coronárias calcificadas tem indicações muito específicas, que importa partilhar com os profissionais dos vários centros, de forma a garantir uma maior experiência de todos”, afirma o diretor do Serviço de Cardiologia do Hospital de Braga, Jorge Marques, acrescentando que o grande desafio nesta área (…) é a seleção dos casos. Tratando-se de uma técnica mais invasiva, tem riscos acrescidos ainda que controlados e é, por isso, fundamental uma criteriosa seleção dos casos”.

O cardiologista de intervenção e responsável pela organização do evento, Carlos Braga, explica que as lesões coronárias severamente calcificadas “são um dos principais desafios da Cardiologia de Intervenção”, sendo que para garantir um bom resultado, “a intervenção percutânea nas lesões calcificadas mais complexas exige frequentemente a utilização de diferentes modalidades de diagnóstico e terapêutica, o que torna este tema um excelente alvo para discussão de estratégias, partilha de experiências e interação entre os participantes da iniciativa D@CL.”

Segundo o responsável pela iniciativa, “o D@CL pretende promover ações de formação práticas e dinâmicas, com o objetivo de adquirir ou partilhar conhecimento em procedimentos inovadores e complexos. É uma iniciativa que também permite aos cardiologistas de intervenção conhecerem o dia a dia de um laboratório de hemodinâmica do país, num ambiente informal, hands on e de proximidade.”

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