Entrevistas

Cátia Machado: “O AMPA é um método preferencial para seguir o doente hipertenso”

Cátia Machado, interna de formação específica em Medicina Geral e Familiar (MGF) no ACeS Baixo Vouga, esteve à conversa com o Jornal Médico a propósito do artigo de revisão, intitulado de “AMPA: que informações estamos a perder”, publicado na edição julho/agosto 2022 da Revista Portuguesa de Hipertensão e Risco Cardiovascular. Com um olhar atento em relação à pressão arterial, a médica salienta a importância de um correto diagnóstico desta patologia e em que medida o método AMPA prova a sua eficácia no seguimento destes doentes. Leia a entrevista na integra.

Jornal Médico (JM) | Para contextualizar, o que é a auto-medição da pressão arterial em ambulatório (AMPA) e o que a distingue dos restantes métodos de avaliação da pressão arterial, em termos de mais-valias?

Cátia Machado (CA) | A auto-medição da pressão arterial em ambulatório, à qual designamos de AMPA, é um método de medição de pressão arterial no domicílio, feito de uma forma estruturada durante sete dias, sendo que o mínimo são três dias, em que os doentes recorrem a um aparelho de tensão validado e medem normalmente três vezes de manhã e três vezes ao final da tarde, excluindo sempre a primeira medição.

Geralmente, estas medições são intervaladas em 1/2 minutos, o doente deve estar numa sala silenciosa, em repouso, sentado de forma adequada para que após cinco minutos possa começar a medir. Após o registo completo, transcrevemos os resultados excluindo sempre o primeiro dia e o valor da AMPA é expresso pelas médias das restantes leituras sendo que, um valor médio da pressão arterial sistólica acima de 135 mmHg e da diastólica acima de 85 mmHg, indica a hipertensão arterial.

O que distingue a AMPA dos outros métodos de medição da PA, em termos de mais valias, é o facto de ser um método amplamente disponível que permite reduzir os custos em saúde e fazer o diagnóstico de patologias como a hipertensão da bata branca e a hipertensão mascarada. Este é um método preferencial para seguir o doente hipertenso, deteta uma eventual redução excessiva da PA no domicílio e aumenta a adesão à terapêutica a longo prazo, pois o doente assume um papel ativo no tratamento da própria PA.

JM | No artigo “AMPA: Que informações estamos a perder?”, do qual é a primeira autora, pode ler-se “Seria assim expectável a sua maior utilização na prática clínica a nível do diagnóstico, monitorização, tratamento e prognóstico da PA”. Da sua experiência, podemos dizer que a AMPA é, efetivamente, utilizada na prática clínica? Caso assim não seja, qual é a explicação para que não seja mais amplamente utilizada?

CA | A AMPA é sem dúvida já muito utilizada pelas equipas de saúde, como exemplo, a nossa USF utiliza este método há cerca de 5 anos. Em comparação com a monitorização ambulatória da pressão arterial, MAPA, a AMPA é um método mais acessível nos cuidados de saúde primários e utilizada sobretudo nas consultas de vigilância da hipertensão arterial e diabetes ou, na suspeita de um diagnóstico de novo quando não temos à nossa disponibilidade a MAPA.

O seguimento do doente hipertenso com a AMPA periódica evita decisões com base apenas em medições do consultório ou em medições ocasionais que os doentes trazem. O que nós nos apercebemos é que, com alguma frequência, alguns colegas usam apenas este registo ocasional da pressão arterial que o doente traz para ajuste de medicação. Estas medições, quando não realizadas de forma estruturada como mencionei anteriormente, não se podem chamar de AMPA.

A limitação do tempo é uma das principais dificuldades, requer tempo de consulta dedicado à explicação de como a PA deve ser medida e registada, deve-se também verificar se o aparelho do doente consta da lista de equipamentos válidos e, idealmente, medir 3 vezes também em consulta.

No entanto, o que notamos na nossa USF é que os doentes percebem facilmente como devem fazer e dedicando um tempo adequado na explicação inicial, acaba por se poupar tempo nas consultas seguintes, além de que, por vezes, os doentes trazem uma AMPA à consulta mesmo quando não pedimos.

O tempo dedicado à transcrição dos resultados também é uma limitação. Na nossa prática, transcrevemos para uma folha de Excel.

Outras limitações que importam referir é a indução de ansiedade em alguns doentes, o risco de alteração de medicação dos doentes não supervisionada e não fornecer informação sobre a PA durante o sono ou durante o trabalho.

Penso que a utilização de diferentes métodos de medição arterial é o ideal.

JM | Sucintamente, qual foi o racional para a vossa revisão da evidência científica sobre a AMPA e quais os principais resultados obtidos?

CA | Para nós, médicos de família, é um dos métodos de medição da PA mais acessíveis e que nos dá ao mesmo tempo informações úteis na prática diária. Neste momento, olhamos com mais atenção para as médias de PA diastólica e sistólica, contudo, este método dá-nos muito mais informações com potencial de, num futuro próximo, pautar as nossas decisões, como a pressão de pulso, a variabilidade tensional e a carga da AMPA. Estes parâmetros estão já estudados para as medições de consultório e para a MAPA.

No fundo, procurámos verificar se havia publicações que tivessem como objeto de estudo estes pontos que o AMPA também nos dá e que podem proporcionar informação útil em algumas circunstâncias constituindo ferramentas válidas na nossa prática diária.

JM | Uma das conclusões da vossa análise foi: “Com a crescente utilização e evidência da AMPA perspetiva-se que venha a ser considerado um método com grande potencial”. Porquê?

CA | Como referi anteriormente, é um método custo efetivo e de grande acessibilidade. Hoje em dia, muitos doentes têm um aparelho de medição da PA e, quando não têm, adquirem facilmente. Para além disso, é um método que nos fornece muita informação para uma gestão adequada da PA. Ao contrário da MAPA, tem uma janela temporal de sete dias e estão em estudo equipamentos AMPA que permitem uma medição noturna da PA que não perturba tanto o sono como o MAPA, permitindo, desta forma, alargar a ainda mais esta janela temporal e identificar padrões de variabilidade que ainda não são caracterizados em termos de prognóstico.

É também um método capaz de diminuir os custos em saúde, isto porque, em doentes com tensão arterial controlada e uma comunicação eletrónica eficaz com o médico, poderia ser uma alternativa à consulta presencial e, desta forma, reduzir a frequência de consultas do doente hipertenso, disponibilizando tempo para dar resposta a outras necessidades em saúde.

JM | Também de acordo com o que está na introdução do vosso artigo “Os métodos de avaliação da pressão arterial evoluíram nas últimas décadas, com uma maior acessibilidade e facilidade de utilização pela maioria da população”. Contudo, a hipertensão continua a ser uma patologia muito prevalente e subdiagnosticada. Na sua perspetiva, o que se poderia fazer para melhorar estes aspetos e, consequentemente, os números associados à hipertensão?

CA | Talvez um rastreio sistematizado, como existe em Portugal para os rastreios oncológicos, em que se convocava os utentes, sobretudo os não utilizadores e os que têm outros fatores de risco cardiovasculares. O que reparamos é que apenas uma percentagem de doentes, de acordo com a faixa etária, utiliza os nossos serviços.

Por outro lado, aumentar a literacia da população em todos os campos de saúde, particularmente na hipertensão arterial, explicar em que consiste de modo prático a pressão arterial e sensibilizar para as suas consequências. Explicar a variação normal dos valores de pressão arterial e que, perante uma alteração da PA mantida ao longo do tempo, mesmo que o doente associe a fatores de stress do dia a dia, deve ser valorizada e deve procurar os cuidados de saúde médicos para um diagnóstico e seguimento adequado desta patologia.