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Dados de mundo real do estudo LATINO expõem necessidade e oportunidades para otimização da terapêutica antidislipidemiante

A Sociedade Portuguesa de Aterosclerose anunciou recentemente a publicação dos dados do estudo LATINO, que teve como objetivo “descrever as características clínicas, a terapêutica hipolipemiante e o controlo do colesterol LDL” de doentes acompanhados na Unidade Local de Saúde de Matosinhos (ULSM). Este documento reúne duas décadas de informação e entre os vários resultados obtidos, foram identificadas “grandes oportunidades de tratamento perdidas” na otimização da abordagem à dislipidemia “para cada categoria de risco de doença cardiovascular, com particular ênfase em doentes de alto e muito alto risco”.

A diretora do Serviço de Cardiologia da ULSM, Cristina Gavina, é a primeira autora do artigo “Cardiovascular Risk Profile and Lipid Management in the Population-Based Cohort Study LATINO: 20 Years of Real-World Data”, que resulta de um trabalho no qual foram utilizados registos eletrónicos de saúde de doentes acompanhados na ULSM para “descrever as características clínicas, a terapêutica hipolipemiante e o controlo do colesterol LDL” (c-LDL), de acordo “com as categorias de risco de doença cardiovascular (DCV) definidas nas guidelines ESC/EAS 2019”.

“Este estudo transversal mostrou que mais de um em cada três indivíduos acompanhados na ULSM foram considerados nas categorias de risco CV alto ou muito alto, mas tinham um mau controlo do c-LDL. Apenas 7% dos doentes de alto risco e 3% de risco muito alto atingiram os alvos do c-LDL preconizados pelas guidelines ESC/EAS 2019”, afirmam os autores do artigo, no qual se pode ler também que “as estatinas de intensidade moderada foram os hipolipemiantes usados com mais frequência, independentemente da categoria de risco CV”, e que “uma proporção substancial de doentes não estava sob terapêutica hipolipemiante, apesar de atender aos critérios para iniciar a medicação”.

À luz dos resultados obtidos, os investigadores defendem que se deve considerar a “falta de conhecimento das recomendações” como “um fator que contribui para a gestão subótima da dislipidemia”, que “a inércia do tratamento pode desempenhar um papel importante na revisão da terapêutica hipolipemiante”, que “as crenças e equívocos do doente em relação aos hipolipemiantes podem dificultar a intensificação da terapêutica” e que “a estratificação da categoria de risco CV do doente pode ser difícil de realizar na prática clínica diária”.

“Assim, torna-se fundamental estudar o impacto das considerações mencionadas para aumentar a aplicabilidade das recomendações no mundo real”, sublinham, lembrando que “as guidelines da ESC de 2021, lançadas recentemente sobre prevenção de DCV na prática clínica, posicionam a estimativa de risco de DCV como a pedra angular para uma intervenção personalizada no nível individual, com uma abordagem gradual para o tratamento de fatores de risco e intensificação do tratamento”, devendo a mesma ser feita em “pessoas aparentemente saudáveis, doentes com DCV aterosclerótica estabelecida, doentes com diabetes mellitus tipo 2 e doentes com fatores de risco específicos, como doença renal crónica e insuficiência cardíaca”.

Saiba mais sobre a metodologia, os resultados e principais conclusões do estudo LATINO aqui.