Entrevistas

Importância e ferramentas disponíveis para a adoção de hábitos alimentares saudáveis na prevenção de eventos cérebro-cardiovasculares

“Em termos práticos, a dieta mediterrânica é reconhecida como um padrão alimentar preventivo de doença cardiovascular”. Quem o afirma é Raquel Lima, mestre em Nutrição que, em entrevista ao Jornal Médico, salienta “o privilégio de dispormos de guia alimentar que nos auxilia nas nossas escolhas diárias, a roda dos alimentos”, e partilha algumas dicas de alimentação para promoção da saúde cardiovascular. A médica interna de Formação Específica em Medicina Geral e Familiar da Unidade de Cuidados Saúde Personalizados (UCSP) de Cantanhede destaca ainda a importância da literacia em saúde e o papel do Nutri-Score como ferramenta de promoção de boas escolhas alimentares. Leia a entrevista na integra.

Jornal Médico (JM) | De ponto de vista alimentar, faz sentido uma abordagem estritamente orientada pelo balanço calórico, ou importa igualmente orientar a alimentação do ponto de vista nutricional?

Raquel Lima (RL) | Para a manutenção de um peso saudável é necessário um equilíbrio entre a ingestão e o gasto energético, isto é, um adequado balanço calórico. No entanto, de uma visão holística, a alimentação não se restringe apenas a assegurar a manutenção ponderal, mas sim a garantir um correto aporte de macro e micronutrientes. Na minha opinião, um regime alimentar baseado única e exclusivamente no balanço calórico, não tendo em consideração as características nutricionais, pode resultar em défices nutricionais com consequências nefastas para a saúde (exemplos: desnutrição, anemia, défices vitamínicos e minerais).

Em Portugal, temos o privilégio de dispor de um guia alimentar que nos auxilia nas nossas escolhas diárias, a roda dos alimentos. Esta é composta por sete grupos (cereais e derivados, tubérculos; hortícolas; fruta; gorduras e óleos; lacticínios; carne, pescado e ovos; leguminosas), cada um deles incluindo alimentos com características semelhantes quanto à sua composição nutricional, com funções e características nutricionais específicas. Por este motivo, e de uma forma geral, a alimentação diária deve ser:

  • Completa, incluindo alimentos de todos os grupos;
  • Variada, ingerindo alimentos diferentes dentro de cada grupo, variando diariamente, semanalmente e nas diferentes épocas do ano;
  • Equilibrada, os grupos apresentam diferentes dimensões, sendo maiores ou menores consoante a expressão (quantidade) que devem representar na nossa alimentação.

Seguindo as orientações supracitadas, teremos o “melhor de dois mundos”: por um lado, se tivermos em atenção o balanço calórico, garantimos um aporte energético ajustado às necessidades individuais; por outro, se seguirmos as orientações da nossa roda dos alimentos, garantiremos um aporte de nutrientes adequado e saudável.

 

JM | Que nutrientes deverão ser priorizados para promover uma boa saúde cardiovascular e, por outro lado, que nutrientes poderão ser considerados “inimigos”?

RL | As doenças cérebro-cardiovasculares são atualmente a principal causa de morte em Portugal. A sua prevenção passa pela promoção de estilos de vida saudáveis e correção dos fatores de risco cardiovasculares modificáveis: hábitos alimentares adequados, atividade física regular, cessação tabágica, controlo do peso corporal, pressão arterial, ficha lipídica e diabetes.

Estudos demonstraram que, em 2017, os hábitos alimentares inadequados eram o terceiro principal fator de risco para o total de anos de vida saudável perdidos, estimando-se que cerca de 300.000 anos de vida saudável poderiam ser poupados se os portugueses os melhorassem.

Neste sentido, para promover uma boa saúde cardiovascular devem ser priorizados alimentos com alto teor em fibra; deve ser dada preferência à gordura mono ou polinsaturada, nomeadamente os ácidos gordos ómega 3; o consumo de proteína deve ser moderado e privilegiando a de origem vegetal; devem ser consumidos alimentos com fitoesteróis, bem como alimentos com antioxidantes na sua composição como vitamina C, vitamina E, carotenóides e flavonoides.

Relativamente aos nutrientes cujo consumo deve ser minimizado, de salientar os lípidos, em especial a gordura trans e a gordura saturada, responsáveis pela elevação dos níveis de colesterol total e pelo aumento dos níveis de colesterol LDL. Para além disso, o sal deve ser restringido a menos de 5 g/dia dado que é o principal fator de risco para o aumento da pressão arterial. O álcool não deve ultrapassar as 10 g/dia para as mulheres e 20 g/dia para os homens, uma vez que é conhecida uma associação em forma de J entre o seu consumo e o risco cardiovascular, isto é, baixos consumos poderão apresentar efeito protetor, enquanto o consumo elevado aumenta o risco.

Em termos práticos, a dieta mediterrânica é reconhecida como um padrão alimentar preventivo de doença cardiovascular. Esta privilegia o consumo de produtos de origem vegetal (cereais pouco refinados, produtos hortícolas, fruta, leguminosas secas e frescas e frutos secos e oleoginosos), frescos e pouco processados; o consumo frequente de pescado e o baixo e pouco frequente de carnes vermelhas; o consumo baixo a moderado de lacticínios; o azeite como principal fonte de gordura alimentar e a utilização de ervas aromáticas para temperar em detrimento do sal. A água é a bebida de eleição, preconizando-se o consumo baixo a moderado de vinho e apenas nas refeições principais.

JM | Que importância atribui à literacia da saúde como meio de prevenção de maus hábitos alimentares? Qual a sua opinião do Nutri-Score como ferramenta de promoção de boas escolhas alimentares?

RL | A literacia em saúde assume um papel preponderante na prevenção de maus hábitos alimentares, uma vez que pressupõe a aquisição de competências cognitivas e sociais que dotem o indivíduo de capacidade para tomar decisões em saúde fundamentadas. De acordo com um estudo realizado em Portugal, no ano de 2016, cerca de 40% dos consumidores assumiu não compreender a informação dos rótulos dos alimentos, atingindo os 60% em grupos com baixo nível de literacia.

O Nutri-Score trata-se de uma escala da qualidade nutricional dos alimentos, que através de um esquema de cores (verde escuro, verde claro, amarelo, laranja e vermelho) associadas a letras (A a E), pretende auxiliar os consumidores nas suas escolhas, tornando-as mais saudáveis, fáceis e rápidas, independentemente dos seus conhecimentos na área. É de uso voluntário pela indústria e não apresenta ainda uma expressão generalizada, pelo que não possibilita uma comparação entre todos os produtos disponíveis no mercado.

No nosso país não existe uma recomendação para a utilização de um sistema de rotulagem simplificativo em particular, o que faz com que coexistam vários gerando confusão na escolha do consumidor. No entanto, tudo aponta para uma possível adoção do Nutri-Score como o sistema de rotulagem nutricional simplificativo harmonizado a nível da União Europeia, uma estratégia de saúde pública que se poderá traduzir em melhores opções alimentares pelos consumidores e, consequentemente, melhores indicadores de saúde.

Gostaria de salientar que, não obstante a importância da existência do Nutri-Score nas embalagens, é essencial a manutenção da informação nutricional obrigatória presente nos rótulos dos produtos alimentares, uma vez que o cálculo do Nutri-Score não contempla todos os componentes de um produto, e esta informação deve estar detalhada para quem a saiba interpretar e deseje consultar.

 

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