Entrevistas

João Morais: Componente motivacional é fator preponderante nos programas de reabilitação cardíaca

A Unidade de Reabilitação Cardíaca do Centro Hospitalar de Leiria foi recentemente acreditada pela European Association of Preventive Cardiology (EAPC) na área da prevenção secundária e reabilitação cardíaca. Para João Morais, diretor do Serviço de Cardiologia e coordenador do Centro de Investigação do Centro Hospitalar de Leiria (CHL), os resultados desta componente motivacional destacam-se na manutenção de práticas saudáveis e nas análises dos doentes a longo prazo. Leia a entrevista na íntegra.

Jornal Médico | Na qualidade de diretor do Serviço de Cardiologia de Leiria, de que forma estão a sentir a intensificação de problemas cardiovasculares previstos como consequência da pandemia?

João Morais | Não há propriamente novos problemas. O grande problema prende-se com o facto de a maioria dos doentes, que agora nos chega, deveria ter sido já tratada, pois muitos deles, encontram-se em situação clínica que imaginamos que há dois anos atrás poderia ser bem melhor do que aquela que têm atualmente.

Mesmo no pico da pandemia, nunca deixámos de tratar enfartes do miocárdio agudo. É evidente que os doentes vinham menos, porque tinham medo do vírus, mas o Serviço esteve sempre ativo e a funcionar. Depois, é evidente também que temos problemas quer a montante, quer a jusante. Os grupos cirúrgicos que não tinham praticamente lista de espera antes da pandemia, hoje, esperam seis meses para ser operados porque o volume aumentou brutalmente. E temos problemas a montante, porque também os médicos de família só há bem pouco tempo é que começaram a abrir as suas portas. Tivemos doentes que chegavam sem nunca terem sido vistos por um médico.

 

Jornal Médico | O programa de reabilitação cardíaca no Centro Hospitalar de Leiria foi recentemente distinguido, o que é essencial para a dinamização e sucesso deste programa?

João Morais | Isto é um reconhecimento, mas este reconhecimento não mudou em nada a nossa prática. Porquê? Porque este reconhecimento, aquilo que faz é dizer: a vossa prática é correta. Não diz “são bons” ou “muito bons”.

A equipa ficou muito agradada, muito confortável em ter este reconhecimento. Aquilo que fazemos é comunicar com os doentes que nos procuram e isso dá-lhes confiança. Nós convidamos o doente a entrar num programa para o qual tem de estar muito envolvido e isso implica que nem todos são capazes de entrar. Mas, o facto de o programa ser reconhecido é um argumento adicional para quem tente atrair os doentes para o programa e isso acresce a confiança, sem dúvida.

Quando se fala em reabilitação cardíaca, pensa-se imediatamente em exercício, porém, o exercício é apenas uma pequena parte do programa e, por vezes até muito pequena. Depende do tipo de doentes que temos. Porém, a parte mais importante do programa, aquela que nos dá, diria até, particular gosto, é a componente motivacional. É percebermos que ao fim de um ano, alguns doentes continuam a ter hábitos corretos, como prática regular de exercício físico, ou continuam a ter análises excelentes, devido a esta componente motivacional, a parte mais importante do programa.

A evolução das análises é verdadeiramente notável. Estes doentes, ao fim de algum tempo, apresentam análises inacreditavelmente boas. A parte mais importante é ter um doente muito motivado.

E isto não se consegue com o trabalho de um só médico, até porque há problemas paralelos que precisam de resolução. Por exemplo, pede-se ajuda à Urologia, porque o doente tem uma disfunção erétil que não conseguimos resolver, pede-se ajuda à consulta de cessação tabágica, à Pneumologia, para apoiar o doente a deixar de fumar, tudo isto integrado no programa, com o doente rapidamente a ser assistido. Quando dizemos que o doente está no centro sistema, aqui é indiscutível, está mesmo, e o doente sente isso.

 

Jornal Médico | O Estado não comparticipa o tratamento de reabilitação, no entanto, existem outras maneiras de torná-lo mais acessível ao doente? E aos hospitais que desejam criar este centro?

João Morais | Não temos grandes alternativas a esta situação. Portanto, aquilo que precisávamos, obviamente, era de uma ajuda do Estado. O Estado deveria ser capaz de interiorizar os problemas da reabilitação cardíaca como uma necessidade, pois os resultados são, de facto, muito bons, e criar as condições para que os doentes possam usufruir destes programas.

Os hospitais limitam-se a adaptar o programa ao doente, facilitar-lhe a vida, como costumo dizer. O doente, muitas vezes, não tem mesmo hipótese de ir sozinho, por isso, tem de trazer alguém e esse alguém tem de ter tempo para esperar por ele. Portanto, existem uma série de nuances que não são só económicas, mas sobretudo sociais.

Se um doente vai fazer radioterapia. Tem de ir a Coimbra todos os dias durante 4, 5 ou 6 semanas, e para isso, é possível ter transportes. Na área de reabilitação não. Nesse sentido, considero que ainda estamos quase na pré-história e, por isso, é que a reabilitação não cresce mais, em Portugal. Daí também não arrancar como gostaríamos.

 

Jornal Médico | Qual a principal mensagem que visa transmitir à nova geração de médicos que se está a formar?

João Morais | A resposta não é fácil. Diria que existem duas mensagens muito importantes. A primeira é que sejam, naturalmente, cada vez mais rigorosos naquilo que fazem. Isto é, graças à evolução natural, a medicina cada vez tem menos espaço para improviso. Nesse sentido, o médico tem de ser capaz de ser rigoroso naquilo que faz. Com o acréscimo da segunda mensagem, que é crucial: sem perder nunca o foco no doente.

A tecnologia naturalmente é muito atrativa, é muito entusiasmante e, portanto, o médico mais jovem que vive no mundo da tecnologia é muito atraído por ela, e, muitas vezes, esquece que por trás do aparelho raio-x, está uma pessoa.

A cardiologia é, provavelmente, uma das áreas mais tecnológicas em medicina, portanto, é a área em que temos cada vez mais jovens médicos dedicados a coisas muito específicas, em que o foco do doente se vai perdendo Às vezes, digo em tom de brincadeira, mas quem é que trata do doente? Quem vê o doente que está internado na enfermaria? Quem dá alta ao doente? Quem fala com ele antes de ir embora? Nós sabemos que, infelizmente, a despersonalização da medicina vai acontecer, inclusive em Portugal. Neste momento temos hospitais, realidades, em que o contato do doente com o médico é extremamente ténue. O médico quase não tempo para falar com o doente. Isto é terrível.

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