Entrevistas

João Morais: “É um livro para todos os médicos, e não apenas para cardiologistas”

O livro “A hipocoagulação oral no dia a dia” apresenta-se como um guia prático da autoria de João Morais, diretor do Serviço de Cardiologia e coordenador do Centro de Investigação do Centro Hospitalar de Leiria (CHL); de Cristina Gavina, diretora do Serviço de Cardiologia da Unidade Local de Saúde de Matosinhos/Hospital de Pedro Hispano; e de Francisco Araújo, coordenador do Departamento de Medicina Interna do Hospital Lusíadas de Lisboa. Este foi um livro pensado e escrito para dar ferramentas a qualquer médico no sentido de o fazer sentir confortável com a terapêutica. Leia a entrevista a João Morais.

Jornal Médico | Recentemente escreveu, juntamente com outros colegas, o livro “A hipocoagulação oral no dia a dia” – um guia prático para todos os profissionais de saúde. Porque decidiu investir neste projeto e como escolheu os seus co-autores, Cristina Gavina e Francisco Araújo?

João Morais | Quando temos ideias e quando temos projetos, a melhor maneira de os levar a cabo é convidar amigos. Habitualmente, são pessoas muito ocupadas, mas, também aprendi há muitos anos, que se deve convidar pessoas muito ocupadas porque são aquelas que nos respondem melhor.

O livro aborda uma área à qual me dedico há 20 anos, mas não fazia sentido que fosse apenas eu a escrever o livro. O livro, começou com o objetivo de juntar outras pessoas da área, mas esse objetivo converteu-se em algo muito maior: permitir, e dar espaço, para que médicos jovens, com reconhecidos méritos e competências, pudessem estar envolvidos neste projeto.

Cada um de nós, os três editores principais livro, convidaram outros e com eles prepararam este livro. Portanto, eu diria que o mérito é em cascata. Mérito meu em ter ideias com duas pessoas, mas também dos outros médicos por o fazerem junto dos restantes oito. E nasceu assim, pensado para dar voz a gente nova.

Jornal Médico | Quanto tempo levou a escrever este livro?

João Morais | Demorou bem mais do que aquilo que nós gostávamos. O livro tinha sido planeado para ser produzido em sete ou oito meses, porém, por motivos relacionados com a pandemia, fomos atrasando.

Já depois do livro praticamente pronto, atrasámos, também, o lançamento. Portanto, ao todo, desde que a ideia nasceu até ver a luz do dia, foram mais de 2 anos, mas não demorou seguramente 2 anos a ser feito. Muito longe disso. A pandemia atrasou a divulgação, o lançamento oficial.

Jornal Médico | Como funcionou a colaboração com o grupo de dez jovens especialistas de cardiologia e medicina interna que participaram?

João Morais | Cada um de nós, os três principais, passo a expressão, tomou conta de alguns jovens, contudo, cada um usou a sua própria metodologia. O nascimento dos textos ficou à responsabilidade dos jovens. Por vezes, pensa-se que o incluir jovens é apenas uma questão meramente de “ajuda curricular”, e não, de todo. Naturalmente que é uma ajuda curricular importante para eles, mas os textos que lá estão, a esmagadora maioria do seu conteúdo foi escrita por eles.

É evidente que houve uma discussão prévia, até porque o livro corresponde a uma linha editorial, que queríamos manter ao longo de todos os textos: muito baseado em tabelas, em figuras e pouco texto, com recomendações e sugestões. Portanto, esta tipologia base foi seguida no decorrer dos vários textos. Depois, cada um teve um pouco a liberdade de ir para onde quisesse. No fim, os seniores trataram dos acertos editoriais, relacionados até com algumas coisas que se prendem com a semântica. Portanto, o meu papel foi a revisão final para assegurar a coerência dos textos.

Foi uma experiência muito engraçada. Primeiro porque trabalhar com a Doutora Cristina Gavina e Doutor Francisco Araújo, é um prazer. São duas pessoas profundamente conhecedoras. Eu tinha uma ideia para o livro, a ideia foi maturada e cada um deles deram imensos contributos. Depois, com os jovens tínhamos matéria fantástica. Eu aprendi imenso a rever os textos do livro, sobretudo em áreas que não domino. Li coisas que nem sabia existiam.

Jornal Médico | “Tornar a terapêutica em algo simples é o principal objetivo desta pequena obra, pensada para ser prática, auxiliando o médico de qualquer especialidade a lidar com estes fármacos”, esta afirmação é retirada da sua nota de introdução. Nesta sequência, como devemos entender a palavra “simples”?

João Morais | Hoje, ninguém tem de inventar nada. É evidente que algumas áreas da medicina, exigem que o médico improvise porque não há recomendações firmes. Esta área da hipocoagulação, vai beber ciência a várias áreas, há guidelines múltiplas acerca da trombose venosa ou da doença coronária crónica. Há múltiplas áreas que debitam conhecimento, por isso, a pretensão do livro é a de tentar pôr tudo isto de uma forma simples e de rápido acesso.

Os capítulos do livro, eles próprios por definição já estão a responder a necessidades que os médicos têm. Ou seja, os capítulos foram pensados, não tanto: qual é a ciência? Qual é o estado da arte? Mas sim, pensados em como é que o médico pode ler esta obra e o que é que lhe pode interessar, o que é que pode ser útil. E, por isso, foram pensados exatamente assim, keep it simple: eu abro um livro e vou ter ali resposta para mais de 90% dos problemas nesta área, e em cada capítulo provavelmente nem sequer tenho de ler o texto todo, pois olho para o meio dos bonecos, olho para duas áreas que estão realçadas a cor diferente, que têm recomendações, e consigo com isso, aprender o essencial desta área. Foi esta a ideia e acho que foi conseguida.

Não conheço nenhuma obra feita em língua portuguesa que possa sequer assemelhar-se a esta. É um livro para todos os médicos, e não apenas para cardiologistas. Os ginecologistas, os anestesistas, os neurologistas, todos estes hipocoagulam doentes.  Há múltiplas áreas que, não sendo necessariamente, nem diretamente, ligadas à medicina cardiovascular, mas por natureza da sua existência, vão ter que hipocoagular doentes, ou, pelo menos, vão ter de seguir doentes hipocoagulados. Portanto, para pessoas que não têm um grande background naquela área, mas que podem, e são chamados, no dia a dia, a fazer qualquer coisa nela. Isso acho que, sem dúvida, conseguimos.

Jornal Médico | De que forma esta vossa publicação poderá ter impacto na adesão terapêutica e na persistência do tratamento?

João Morais | Quando falamos de adesão à terapêutica, há duas componentes que são fundamentais: uma prende-se com o doente, e até com os seus familiares, e a outra é com certeza com o médico. Mas o primeiro passo para conseguir adesão à terapêutica dos doentes é convencer o médico, que prescreve, da sua eficácia. Portanto, se eu próprio tenho dúvidas a prescrever um fármaco, não posso esperar muito do meu doente. Portanto, considero que ter um médico ganho para aquela terapêutica e um médico conhecedor daquela terapêutica, dominando aquela terapêutica, é o primeiro passo para que quem está do outro lado da mesa, responda ao nosso pedido.

Nesse sentido, isto é, no sentido de reconhecimento, o livro aborda isso também, tendo em conta que dá ferramentas ao médico para que ele se sinta confortável com a terapêutica. Com certeza que isso é um passo muito importante, talvez até o primeiro para que consigamos a adesão à terapêutica. É impossível discutir a adesão dos doentes sem discutir isto profundamente com os médicos. É aí que tudo começa.

Jornal Médico | Quais foram os capítulos sobre os quais foi mais complicado alcançar o consenso?

João Morais | Não há capítulos de consenso, mas onde tivemos às vezes, mais dificuldades, foi no tentar dizer até onde é que este capítulo deve ir. Isto, porque temos sempre a noção que a temática deste livro pode ser feita produzindo um livro com 400 páginas. Sem grandes dificuldades. É só dar azo à criação de cada um. Então, muitas vezes em determinados capítulos ficamos assim: Ok, onde é que paramos? Como é que sintetizamos isto de maneira que se perceba? Por vezes a síntese tem esse problema, sintetiza tanto que só o próprio que escreveu é que entente o que lá está. Com certeza que temos de ser muito sintéticos, ser capazes de identificar aquilo que é verdadeiramente importante, e, até aí, houve sempre muito consenso. Ou seja, quando se começou a escrever, por exemplo: trombose venosa, vamos até que parte? Falamos em cancro, vamos falar de quê? Isso estava mais ou menos alinhavado. Depois, os próprios autores, à medida que iam escrevendo, iam colocando a própria questão: “Incluo isto, ou isto fica de fora”, “colocamos isto na tabela ou também no texto?”

Jornal Médico | Na cardiologia, na medicina interna e na medicina geral e familiar, cada uma destas especialidades tem as suas próprias guidelines emitidas ao mais alto nível internacional para a área da hipocoagulação. De que forma convergem neste guia prático as diferentes recomendações?

João Morais | Os três autores principais são clínicos. Portanto, qualquer um de nós vê milhares de doentes por ano e temos a perceção entre nós de que tipo de doentes é que vemos, quais são as necessidades dos nossos próprios doentes e quais são os melhores caminhos a percorrer.

Aquilo que escrevemos foi como é que se trata este doente, independentemente de saber qual é guideline dele. É evidente que as guidelines europeias são a mãe do nosso conhecimento. Nós somos todos europeus, as recomendações da Sociedade Europeia de Cardiologia (SEC) são endossadas pelas Sociedades nacionais. Naturalmente, que é sempre aí que está o princípio da nossa ciência, mas depois admitimos a contribuição de outros.

Jornal Médico | Neste guia, como foi respondida a possibilidade de discrepância do arsenal terapêutico disponível nas diferentes unidades do país?

João Morais | Não pode haver muitas diferenças de perspetiva nesta área. Estamos a falar de uma área em que há uma riqueza muito grande de ensaios clínicos e de produção científica, portanto, é uma área em que o médico não tem de inventar muito.

Portanto, eu tenho que imaginar que um doente X seja tratado em Beja da mesma maneira que em Viana do Castelo. Depois, podem haver algumas realidades locais que influenciam isso. No meu território, eu só posso usar o fármaco X ou fármaco Y. Eu diria que esse problema, nesta área muito concreta, acaba por não ser um problema.

Admito que a área de oncologia, por exemplo, é mais do que óbvio e talvez seja até o melhor exemplo, sim. Há com certeza grupos na área da oncologia que tratam de forma completamente diferente e o doente se for ao sítio A, tem uma proposta terapêutica, e se for o sítio B tem uma proposta diferente.

Aqui acho que não, primeiro porque os grupos terapêuticos são muito reduzidos, estamos a falar de quatro ou cinco. Depois, volto a fazer referência que estas recomendações são claras e cuja evidência é muito forte. Portanto, sair da evidência pode até ser de má prática médica.

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