Entrevistas

José Castro Lopes defende a dimensão multidisciplinar “tão necessária às prevenções primária e secundária do AVC”

“A primeira reflexão é sobre a maturidade da comunidade de profissionais que tratam os doentes com AVC em Portugal. São cada vez em maior número e mais dedicados ao AVC, tanto em diferentes especialidades médicas, como não médicas e procuram formação de elevada qualidade”: palavras de José Castro Lopes, presidente da SPAVC, que, em conversa com o Jornal Médico, sublinhou os tópicos que marcaram esta edição do Congresso Anual.

 

Jornal Médico (JM) |Quais as sessões que destaca em termos de adesão e de interesse demonstrado pelos participantes?

José Castro Lopes (JCL) | Num Congresso híbrido não é fácil dizer qual a sessão com mais preferência, apenas dizer que todas tiveram uma presença que se pode designar de “lotação completa”. De qualquer forma, posso dizer que a frequência por especialidades presentes (Neurologia, Medicina Interna, Medicina Geral e Familiar, Medicina Física e Reabilitação, Cardiologia, Endocrinologia, Enfermagem, fisioterapeutas, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, entre outras) com um elevado número de inscrições, tendo ultrapassado 1700, pode inferir-se por evidentes preferências.

Aqui reside a grande riqueza do Congresso – a real multidisciplinaridade tão necessária às prevenções primária e secundária do AVC, mas, e essencialmente, à sua fase aguda.

JM | Pode adiantar algumas dessas ideias ou reflexões que resultaram deste evento?

JCL | A primeira reflexão é sobre a maturidade da comunidade de profissionais que tratam os doentes com AVC em Portugal. São cada vez em maior número e mais dedicados ao AVC, tanto em diferentes especialidades médicas, como não médicas e procuram formação de elevada qualidade.

A segunda reflexão é sobre a necessidade de revisão constante de circuitos de doentes e modelos de organização de cuidados ao doente com AVC nas diferentes fases. Os nossos locais de trabalho necessitam de inovação e incorporação efetiva dos novos conhecimentos científicos que são produzidos e validados anualmente. Só deste modo estes se tornam acessíveis aos doentes que deles necessitam e a tempo de produzirem os melhores resultados ao nível do tratamento agudo, prevenção ou reabilitação. A terceira reflexão está relacionada com a complexidade crescente do processo de decisão sobre qual o melhor tratamento agudo e prevenção secundária ideal. Surgem mais alternativas terapêuticas e conhecimento científico multidisciplinar que permite individualizar cada vez mais as opções a propor a cada doente.

Na minha opinião, o programa deste ano do 16.o Congresso Português do AVC, apesar dos tempos de pandemia, foi dos mais conseguidos, respondendo a estes três vetores fundamentais para a atualização contínua da nossa comunidade de profissionais.

JM | Como é hoje possível permitir o máximo de funcionalidade e qualidade de vida após um AVC e quais a terapêuticas que mais benefícios têm demonstrado?

JCL | Para conseguir o máximo de funcionalidade após um AVC, o mesmo é dizer fazer com que o nosso doente possa atingir todo o seu potencial de reabilitação, é necessário um conjunto de meios humanos e materiais e a observância de boas práticas. Antes de tudo, destaque para uma intervenção precoce das equipas de reabilitação, que felizmente hoje já colaboram na Unidades de AVC. Cada caso deve merecer um programa de reabilitação individualizado. Para tal torna-se obrigatória uma avaliação diagnóstica dos défices funcionais e incapacidades por um médico fisiatra, que vai prescrever e coordenar todo o conjunto de intervenções mais adequadas a cada doente. Estas serão sempre as terapias com mais benefícios, precisamente porque são as adequadas. São muito variadas. Vão desde os cuidados de enfermagem de reabilitação, a técnicas de fisioterapia, de terapia da fala (incluindo reabilitação da disfagia), de terapia ocupacional, à aplicação de ortóteses e auxiliares de marcha, a intervenções no domínio da reabilitação cognitiva. Existe um lugar para técnicas manuais, instrumentais e um futuro inquestionável para o recurso a novas tecnologias.

JM | Quais são, na sua perspetiva, as principais dificuldades que o sobrevivente de AVC enfrenta?

JCL | A maior dificuldade que o sobrevivente de AVC tem é o desconhecimento total do seu direito aos cuidados de reabilitação multidisciplinares, pois é induzido em erro a pensar que ter “fisioterapia” é suficiente. Para atingir o seu potencial máximo e ser integrado na sociedade, segundo as guidelines, para além do médico, outros profissionais são essenciais como terapeutas ocupacionais, enfermeiros de reabilitação, terapeutas da fala, assistentes sociais, psicólogos, nutricionistas. É fundamental existir uma coordenação de todo este processo por Medicina Física e de Reabilitação. Existe falta de literacia na reabilitação, tanto da parte das entidades competentes, bem como da população.

JM | Que avaliação faz à atual capacidade de resposta médica junto dos sobreviventes de AVC, nomeadamente na área de reabilitação, sendo que atualmente estas pessoas são atendidas em idade cada vez mais jovens?

JCL | Vem melhorando, mas é insuficiente. Em instalações, equipamentos, recursos humanos, meios organizativos. Há ainda muitas barreiras no acesso a cuidados de reabilitação. De toda a espécie. Existe uma enorme assimetria geográfica nesta área assistencial. É uma situação profundamente injusta. Gera uma desigualdade inaceitável à luz dos ficados tanto em recursos físicos como humanos. Só assim poderá haver melhor resposta e uma interligação mais próxima com os centros de saúde. Após alta hospitalar, temos de melhorar a rede de referenciação de MFR, incluindo os Hospitais especializados de Reabilitação e as Unidades de Cuidados Continuados. Vem a propósito referir que o governo emitiu um decreto de lei que visa propor melhorias nos cuidados de reabilitação do sobrevivente de AVC. Os médicos de MFR, enquanto coordenadores destas equipas, já felicitaram e demonstraram o interesse em discutir em sede própria estas propostas.

JM | Aquando do Prémio Nacional de Saúde de 2019 o professor afirmou: A reabilitação, não é uma esmola, mas um direito. Se preciso for durante toda a vida. Quais são as batalhas da sociedade no que diz respeito à reabilitação dos sobreviventes?

JCL | A frase em questão traduz uma verdade e uma convicção. Por tal motivo tornou-se já emblemática. Sobretudo para os doentes, que melhor do que ninguém a compreendem. Ora bem: tem existido uma grande melhoria dos cuidados de reabilitação em Portugal, verificando-se por exemplo que todas as UAVC apresentam equipas de reabilitação multidisciplinares, coordenadas por MFR, embora ainda não completas. Temos verificado que existe um esforço para melhoria da resposta pós-UAVC. São necessárias mais camas hospitalares de internamento em MFR. Os serviços de MFR carecem de ser amplificados tanto em recursos físicos como humanos. Só assim poderá haver melhor resposta e uma interligação mais próxima com os centros de saúde. Após alta hospitalar, temos de melhorar a rede de refe renciação de MFR, incluindo os Hospitais especializados de Reabilitação e as Unidades de Cuidados Continuados. Vem a propósito referir que o governo emitiu um decreto de lei que visa propor melhorias nos cuidados de reabilitação do sobrevivente de AVC. Os médicos de MFR, enquanto coordenadores destas equipas, já felicitaram e demonstraram o interesse em discutir em sede própria estas propostas.

 

JM | Qual a sua opinião sobre a criação de uma consulta do sobrevivente do AVC?

JCL | Esta pergunta é, ou seria, um tema para uma tarde de conversa. Desde logo porque representa o reconhecimento da mudança de um paradigma trágico para uma nova situação que, de resto, importa preservar e melhorar: o AVC não tem que ser uma fatalidade! Os grandes avanços na melhoria dos fármacos e dos modelos assistenciais – cuidados primários, serviços pré-hospitalares e hospitalares –  têm permitido que os doentes vivam mais tempo e com maior qualidade de vida, morrendo menos nas situações agudas.

A medicina atual permite que se viva mais tempo e isso inclui os sobreviventes, os muitos sobreviventes de muitas patologias e quadros onde antes a sentença parecia inevitável. Mas isso releva para duas questões: a primeira, a da importância da prevenção e o papel fundamental dos médicos de família e de uma educação para a saúde que deveria ser a plataforma transversal de investimento do SNS; a segunda, a da importância do acompanhamento – chame-se consulta de sobreviventes ou outra coisa qualquer – que assegure a monitorização das sequelas, o esclarecimento informado, a sua reabilitação e a segurança destes doentes perante o seu próprio envelhecimento.

E que possa evitar, também o que vimos neste cenário de SARS-CoV-2: o cancelamento de consultas e exames, o atraso nos diagnósticos por falta de consultas presenciais, o prejuízo nos rastreios e o adiamento e perdas de consultas de follow-up em muitas doenças e no AVC em particular.

Diria enfim que, todos nós, nos defendemos encarniçadamente da hipótese de um evento ou uma perda indesejável. Mas é preciso maior esforço, articulação e coordenação de cuidados de saúde para “sermos felizes”.

A entrevista completa encontra-se disponível aqui.

Patrocínio

Os dados, opiniões e conclusões expressos nesta publicação são da exclusiva responsabilidade do(s) seu(s) autores e não representam necessariamente os de Bial, não podendo, em caso algum, ser tomado como expressão das posições de Bial. Bial não se responsabiliza pela atualidade da informação, por quaisquer erros, omissões ou imprecisões.