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“Mitos e factos da nutrição e doença cardiovascular”

Os mitos e factos da nutrição associados à doença cardiovascular (DCV) foram os principais tópicos em foco da conferência proferida por Pedro Carvalho, professor auxiliar de nutrição no Instituto Superior da Maia e na Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa. Segundo o nutricionista, que é também escritor e autor de rubricas sobre nutrição, “a perda de peso por si só é saudável, mesmo que tenhamos de optar por alguns alimentos ‘proibidos’”.

Comer bem é mais caro?

O especialista em nutrição começou por abordar o primeiro mito/facto associado à nutrição, que é saber se “comer bem é ou não mais caro”. Ora, de acordo com Pedro Carvalho, esses são cálculos já feitos por instituições de referência, como a DECO ou a Direção-Geral da Saúde (manual “Alimentação Inteligente”), “que nos dizem que sim, que é possível fazer uma alimentação saudável e barata”. Exemplo disso “é optar por arroz e massa simples, escolher produtos frescos em vez de embalados, pois estes últimos são muito mais caros e comprar em maiores quantidades, pois além de ser mais barato é melhor para o ambiente, evitando o consumo de plástico e de cartão”. Adicionalmente, “consumir as nossas refeições fora de casa é uma opção que acarreta custos significativamente superiores e pode também ser sinónimo de uma escolha menos equilibrada”.

Respondendo à questão, para o orador, “comer bem e de forma equilibrada não é necessariamente mais caro”, lembrando que “todos os produtos essenciais, como a fruta, legumes, pão, arroz, massas, leite, leguminosas e ovos são produtos genericamente mais baratos”.

O leite é inflamatório?

De entre as várias “mitologias” em torno do leite, o especialista debruçou-se sobre o seu potencial inflamatório. Citando uma das mais recentes revisões sistemáticas (Nutr Metab (Lond). 2021 Jan 7) sobre os efeitos do leite nos vários parâmetros de saúde, o orador informou que “todos os 15 ensaios clínicos demonstram que o leite não tem qualquer efeito pró-inflamatório e, eventualmente, pode até apresentar um efeito anti-inflamatório em grande parte das pessoas”. Como tal, “não se justifica esta preocupação com o leite, ao contrário do que acontece com os açucares adicionados, carnes processadas ou cereais refinados, estes sim, produtos com score inflamatório elevado”, observou.

E os ovos, quantos comer?

Relativamente aos ovos e à polémica envolta nos seus efeitos cardiovasculares nefastos, o professor de nutrição começou por referir que “embora cada ovo médio contenha 200 mg de colesterol na gema, este também é também, do ponto de vista do seu potencial nutricional, um alimento muito rico em várias vitaminas, selénio e proteínas, sendo, por isso, um alimento a valorizar, embora com alguma cautela”.

Quanto à ingestão ideal de ovos, Pedro Carvalho referiu que os resultados de três coortes e de um update de uma metanálise de 2020 (BMJ 2020;368:m513) mostram que “o consumo moderado de ovos (cerca de um ovo por dia) não está associado ao risco de DCV, estando mesmo associado a um risco menor de DCV nas populações asiáticas”. A população diabética é uma exceção, “resultante de um transporte anormal de colesterol, devido a níveis plasmáticos diminuídos de apolipoproteína e aumentados de apolipoproteína C-III (BMJ. 2013 Jan 7;346:e853)”.

Por fim, “pensa-se que para a relação positiva entre o consumo de mais do que um ovo por dia e o aumento do risco CV pode contribuir, até mais do que o colesterol, o óxido de trimetilamina, um metabolito da colina, pois aumenta a inflamação e a oxidação das LDL, aumentando o risco cardiovascular e de diabetes, mesmo após ajuste para fatores de risco (N Engl J Med. 2013 Apr 25;368(17):1575-84)”, notou o preletor.

Estratégias para não cortar radicalmente o sal

No que concerne à restrição do sal nos doentes com hipertensão arterial (HTA), o nutricionista lembrou que “embora necessária, é das recomendações mais gravosas para as pessoas, pelo facto de diminuir a palatabilidade”. Contudo, o especialista informou que existem estratégias para minimizar essa restrição. A perda de peso é uma delas, pois “sabemos que, por exemplo, por cada kg perdido podemos perder quase um mmHg”. Por outro lado, “também o aumento da quantidade de potássio consumida (presente nas leguminosas ou frutos secos, frutos gordos e sobretudo, algumas frutas como a banana, espinafres, lentilhas) pode ajudar neste equilíbrio, compensando algum excesso de sal”. E, por fim, “a prática de exercício físico pode equilibrar os valores de sódio, uma vez que numa hora de treino é possível excretar 2,5g sal”, referiu.

O padrão alimentar “ideal” vs. o padrão alimentar “possível” e flexível

Todos conhecemos as recomendações nutricionais para as DCV, diabetes e cancro e que existe um grande impacto das gorduras trans e saturadas no aumento da mortalidade por DCV, sabendo-se que as gorduras monoinsaturadas e polinsaturadas têm um efeito mais protetor, contextualizou o especialista. Mas, na opinião do orador, “é muito importante não esquecer que ingerimos alimentos ricos em determinadas gorduras, mas também em outro tipo de nutrientes, e, como tal, devemos sempre seguir recomendações alimentares e não propriamente nutricionais”.

É sabido igualmente que “são as carnes vermelhas (sobretudo as processadas) que têm o maior impacto ao nível do risco CV – também os ovos nos diabéticos -, que existe um efeito protetor das oleaginosas e, por outro lado, que um padrão alimentar mais equilibrado inclui vegetais, fruta, iogurtes, pescado, carnes brancas sem pele, frutos gordos (Circulation. 2016 Jan 12;133(2):187-225)”. Contudo, como lembrou o nutricionista, “nem sempre é possível seguir este padrão alimentar ‘ideal’”.

Desta forma, existem outras estratégias mais reais, lembrando desde logo o especialista que “a perda de peso por si só é saudável, mesmo que tenhamos mesmo que tenhamos de optar por alguns alimentos ‘proibidos’”. Na realidade, como notou, “uma redução de 13% do peso corporal permite uma diminuição do risco de diabetes em 41%, do risco da apneia do sono em 40%, da HTA em 22%, da dislipidemia em 19% e da asma em 18%”.

Além disso, e quanto ao tipo de dieta a seguir, “a verdade é que nunca vamos conseguir obter resultados do ponto de vista de perda de peso, e consequentemente melhoria de todo os outros indicadores, quando temos pessoas contrariadas e a não ingerir o que mais gostam”, salientou. Isso mesmo foi demonstrado cientificamente (Int J Obes (Lond). 2008 Jun;32(6):985-91), sugerindo o estudo que “as estratégias para aumentar a adesão a determinado plano alimentar podem merecer mais ênfase do que a composição específica de macronutrientes da própria dieta para perda de peso no apoio à perda de peso bem-sucedida”.

É precisamente por esse motivo que para Pedro Carvalho “é importante perceber em consulta, qual a história de cada pessoa e os motivos que levam ao desequilíbrio calórico e consequente aumento de massa gorda”.

Segundo o nutricionista, “o objetivo não deve ser culpabilizar os hidratos de carbono ou a gordura pelo aumento de peso”, considerando que “o segredo está no equilíbrio e na introdução de pequenos mimos no plano alimentar saudável, de forma a manter a adesão, que é o aspeto essencial para o seu cumprimento”.

O especialista terminou a sua apresentação com um exemplo de um plano alimentar de 1500 Kcal, que inclui ao pequeno almoço uma meia de leite magro, um pão com manteiga com alguma proteína Wey (ou trocar a manteiga e a proteína por queijo magro, fiambre ou presunto); ao almoço e jantar, sopa e prato principal com legumes, proteína e uma quantidade controlada de hidratos de carbono (75g), fruta e um miminho de um quadrado de chocolate no final da refeição; por fim, ao lanche, leite magro e cereais (que podem ser açucarados). Ou seja, concluiu, “trata-se de um plano com uma boa quantidade de proteína para preservação da massa muscular e manutenção do apetite, com uma quantidade de hidratos moderada e que inclui os chamados “5 a day” (5 porções por dia entre sopa, fruta e legumes), e, em simultâneo, manteiga, cereais açucarados e chocolate todos os dias, em quantidades moderadas”.

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