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Pandemia de COVID-19: “Uma amálgama de fatores de risco cardiovascular” na população pediátrica

Paula Martins, cardiologista pediátrica no Hospital Pediátrico de Coimbra, foi a oradora da palestra “Impacto da pandemia na saúde cardiovascular da nova geração”, que decorreu a 28 de outubro, integrada na sessão “Cardiologia Pediátrica”. A médica destacou os aspetos relacionados com a pandemia de COVID-19 que, na sua perspetiva, terão maior impacto na saúde cardiovascular da população pediátrica.

SÍNDROME INFLAMATÓRIA MULTISSISTÉMICA PEDIÁTRICA

A síndrome inflamatória multissistémica pediátrica (PIMS/MIS-C) é uma complicação rara da COVID-19 em crianças, com mecanismos moleculares desconhecidos (Buszko et al., Nat Immunol 2021). Inicialmente confundida com a síndrome de Kawasaki, a PIMS/MIS- -C caracteriza-se por febre, exantema e conjuntivite, distinguindo-se por afetar uma faixa etária superior, com predomínio de sintomas gastrointestinais, menor envolvimento das mucosas, e linfopenia e trombocitopenia mais pronunciadas. Além de níveis elevados de proteína C reativa, a PIMS/MIS-C associa-se também a níveis elevados de troponina e de péptido natriurético pró-B. No ecocardiograma, apresenta-se com diminuição da função ventricular esquerda e, por vezes, alterações das artérias coronárias.

Os estudos em crianças com PIMS/MIS-C revelam, contudo, que a maioria não apresenta sequelas após 6 meses a 1 ano de follow-up (Davies et al., JAMA Pediatr 2021; Penner et al., Lancet 2021). “Isto deixa-nos tranquilos”, comentou Paula Martins, ressalvando que as alterações das coronárias são o parâmetro mais demorado em termos de resolução e que as crianças cardiopatas representam um “desafio acrescido”.

VACINA CONTRA A COVID-19

Relativamente aos efeitos adversos da vacinação contra a COVID-19 na população pediátrica, a oradora mencionou as recomendações elaboradas por especialistas australianos e neozelandeses (Guidance on Myocarditis and Pericarditis after mRNA COVID-19 vaccines). O documento reconhece a existência de “um risco acrescido de miocardite/pericardite associada às vacinas de mRNA contra a COVID-19”, resumiu a médica, salientado que o risco de miocardite/pericardite associada à vacina é inferior ao risco associado à infeção ativa (2,7 vs. 11 casos/100 000 habitantes). O documento refere ainda que a incidência de miocardite/pericardite associada às vacinas de mRNA contra a COVID-19 é superior em indivíduos do sexo masculino com idade inferior a 30 anos e após a toma da 2.ª dose da vacina.

Um estudo que avaliou crianças internadas com miocardite após vacinação contra a COVID-19 reporta dor torácica, febre, aumento de troponinas e alterações difusas ST como principais manifestações clínicas (Dionne et al., JAMA Cardiol 2021). O estudo evidencia o curso benigno e de curta duração destes casos, com a maioria dos doentes a apresentar ecocardiograma normal 1-13 dias após alta clínica.

Paula Martins partilhou a experiência do Hospital Pediátrico de Coimbra, que incluiu 6 jovens (5 rapazes e 1 rapariga) com miocardite associada temporalmente à vacinação contra a COVID-19. A idade variou entre 13 e 17 anos e apenas 1 caso foi admitido após toma da 1.ª dose da vacina. Os sintomas tiveram início 1-4 dias após vacinação. Os níveis de troponina variaram entre 1219 e 16290 ng/L e 2 casos apresentaram alterações ecocardiográficas. A médica informou que se registou uma recidiva de miocardite com pericardite, tendo-se identificado o vírus sincicial respiratório nas secreções do doente.

ESTILOS DE VIDA

Diversos estudos reportam a redução da atividade física acompanhada do aumento do consumo de alimentos ultraprocessados em crianças e adolescentes durante a pandemia, com consequente aumento do índice de massa corporal (Ruíz-Roso, Nutrients 2020; Stavridou et al., Chlidren 2021). Adicionalmente, “o confinamento teve um impacto negativo na saúde mental de crianças e adolescentes”, referiu Paula Martins, alertando também para o aumento da exposição da população pediátrica aos hábitos tabágicos dos progenitores durante este período.

Em suma, a pandemia de COVID-19 trouxe “uma amálgama de fatores de risco cardiovascular”: por um lado, o vírus e a vacina como “mediadores inflamatórios”; por outro lado, o aumento do risco de obesidade e de fatores comportamentais indutores de “alterações do metabolismo glicídico e lipídico”; finalmente, o stresse, a ansiedade e o tabagismo, com consequências na “saúde cardiovascular futura”, concluiu a especialista.

Artigo presente na edição impressa n.º 125 do Jornal Médico

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