Opinião

Patrícia Vasconcelos: “Saúde cardiovascular na mulher: um desafio no horizonte”

Leia o artigo de opinião de Patrícia Vasconcelos, assistente hospitalar de Medicina Interna do Hospital Fernando Fonseca (HFF), sobre as doenças cardiovasculares nas mulheres, que, para a especialista, “estão subdiagnosticadas e subcomunicadas”.

As doenças cardiovasculares (DCV) são a principal causa de morbimortalidade nas mulheres em todo o mundo, estimando-se que uma em cada três morra de DCV1-2.  Segundo dados da Fundação Portuguesa de Cardiologia, anualmente, as DCV são responsáveis por mais de 20 mil vítimas entre as mulheres, um número superior ao do universo masculino3.

Todos os anos, em Portugal, há́ cerca de mais quatro mil mulheres a morrerem de DCV do que homens, constituindo estas, ao contrário do que se pensa, a principal causa de morte. Tem-se também verificado, de forma preocupante, um aumento da mortalidade por DCV e uma maior incidência de enfarte agudo do miocárdio em mulheres jovens3.

Apesar destes números, o risco de DCV na mulher continua a ser inadequadamente identificado, subvalorizado e pouco estudado. Entre as principais razões estão4:

  • Falta de consciencialização do problema pelas mulheres, pela comunidade médica e científica e pela sociedade;
  • Sub-representação das mulheres em estudos clínicos o que causa uma lacuna de conhecimento sobre o impacto das doenças cardíacas neste grupo especial, quais os medicamentos mais recomendados e em que doses;
  • Dificuldades de diagnóstico da população feminina, uma vez que os sintomas são menos explícitos do que nos homens;
  • Especificidades dos fatores de risco clássicos na mulher;
  • Condições clínicas exclusivas da mulher associadas a um aumento e, por vezes, ao início precoce do risco de DCV;
  • Menor assiduidade no recurso aos cuidados de saúde em mulheres bem como uma menor adesão ao tratamento.

 

Tal como referi, podemos considerar dois grupos de fatores de risco (FR)4:

– Os FR tradicionais/clássicos (hipertensão arterial; dislipidémia; sedentarismo; tabagismo; diabetes mellitus; obesidade) que apresentam prevalência e “peso” diferente nas mulheres. A prevalência de obesidade central e sedentarismo é maior nas mulheres e estas, quando fumadoras e/ou com diabetes, apresentam risco CV superior ao dos homens.

– Os FR específicos/exclusivos do sexo feminino: hormonais (relacionado com os níveis de estrogénio: menopausa precoce, terapêutica hormonal substituição, síndrome do ovário poliquístico); condições associadas à gravidez (eclâmpsia, diabetes gestacional, parto pré́-termo, interrupção da gravidez e restrição do crescimento intrauterino); doenças autoimunes (lúpus eritematoso sistémico e artrite reumatoide); terapêuticas associadas ao cancro da mama (radiação da parede torácica e cardiotoxicidade associada à quimioterapia) e fatores psicossociais (por exemplo, a depressão).

De salientar que a transição para a menopausa constitui um tempo de risco CV acelerado, associado a dislipidemia aterogénica, isto é, um conjunto de alterações nos níveis de gordura no sangue que aceleram o processo de deposição de gordura nos vasos sanguíneos (aterosclerose) e causam DCV, que se caracteriza por LDL (“mau” colesterol) relativamente normal, porém com moléculas pequenas e densas, HDL (“bom” colesterol) baixo e triglicéridos altos4.

Para contrariar esta realidade é necessário apostar na prevenção, assim como aprender a identificar e interpretar precocemente os sintomas destas doenças nas mulheres.  A identificação criteriosa dos FR específicos da mulher é fundamental para uma correta estratificação de risco CV, no sentido de implementar estratégias de modificação do estilo de vida e controlo agressivo dos FR, sempre que necessário com recurso à terapêutica farmacológica4.

Na minha opinião, deveriam ser implementadas estratégias de prevenção CV adaptadas às mulheres e fazer da sua saúde uma prioridade de saúde pública.