Aspirina para prevenir primeiro enfarte ou AVC apenas em casos de risco

A toma regular da aspirina para prevenir um primeiro ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral (AVC) deve ser feita apenas por quem apresenta elevado risco cardiovascular e mediante acompanhamento médico.

“Só num grupo restrito de pessoas com muito risco (…) pode ser benéfico fazer aspirina antes de qualquer evento cardiovascular”, adiantou à Lusa o coordenador do Grupo de Estudo de Tromboses e Plaquetas (GETP) da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), Rui Guerreiro.

Segundo o médico, nas pessoas que nunca sofreram um enfarte ou um AVC, os últimos estudos mostram que, apesar de o medicamento prevenir “a ocorrência destes eventos, tem um custo significativo” de aumento da possibilidade de hemorragias, principalmente ao nível gastrointestinal.

“Esta prática clínica em prevenção primária já não é atual. Desde há alguns anos que temos esta informação e as recomendações traduzem exatamente isso. É uma prática que tem vindo a ser abandonada com base nos últimos estudos”, explicou o cardiologista.

Relativamente a quem já fez um enfarte ou um AVC, o membro da SPC avançou que estas pessoas “continuam a ter indicação para fazer aspirina”, por prescrição e com acompanhamento médico.

A aspirina torna o sangue mais fino, o que evita a formação de coágulos sanguíneos e ajuda a reduzir o risco de ataque cardíaco ou AVC.

Hormonas podem aliviar dificuldades de movimento corporal após lesão cerebral ou AVC

Um grupo de investigadores de vários países, incluindo Portugal, realizou um estudo que demonstra como as hormonas podem aliviar as dificuldades de movimento após uma lesão cerebral traumática ou Acidente Vascular Cerebral (AVC).

O trabalho publicado na revista científica eLife, a que a Lusa teve acesso e que tem como primeiro autor Nikolay Lukoyanov, investigador do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto (i3S) e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), concluiu que as hormonas libertadas pela hipófise, após uma lesão cerebral, contribuem para a perda de movimentos corporais. Assim sendo, caso estas hormonas sejam bloqueadas, os efeitos nocivos de uma lesão podem ser contrariados.

“Sabemos que um AVC ou uma lesão de um lado do cérebro causa dificuldades de movimento no lado oposto do corpo e estudos recentes mostraram-nos também que se dermos certas hormonas a um ratinho sem lesão cerebral isso pode causar perda de movimentos num dos lados do corpo. Descobrimos então, após testes in vivo, que são duas hormonas hipofisárias em específico — a ß-endorfina e a Arg-vasopressina — que causam este efeito de contração dos membros”, explica, em comunicado, Nikolay Lukoyanov.

A equipa administrou estas duas hormonas a ratos sem lesões cerebrais e descobriu que os mesmos desenvolveram contração do membro inferior do lado direito. Posteriormente, tentaram perceber o que aconteceria se administrassem a ratos com lesão cerebral do lado esquerdo medicamentos que bloqueassem os efeitos destas duas hormonas.

Os investigadores concluíram que os animais não desenvolveram problemas de movimento do lado direito, como seria de esperar.

“A nossa expectativa é que se tratarmos os pacientes com lesões cerebrais semelhantes com medicamentos que bloqueiam os efeitos destas hormonas, podemos obter melhorias” a nível físico, acrescenta Nikolay Lukoyanov.

Estas observações sugerem que “o sistema endócrino, através das suas hormonas no sangue, pode visar seletivamente os lados esquerdo e direito do corpo dos animais”.

“Temos de ser cautelosos na interpretação destas descobertas e das suas implicações biológicas e precisamos de verificar este fenómeno noutros modelos animais, mas se se confirmarem os benefícios de tratamentos que bloqueiam estas hormonas, poderemos ter aqui uma nova abordagem ao tratamento de problemas de movimento após um AVC ou lesão”, considera Nikolay Lukoyanov.

A equipa é constituída por Georgy Bakalkin e Jens Schouenborg (Universidade de Lund, Suécia), coautores séniores do estudo, e, como primeiros coautores, Nikolay Lukoyanov (Universidade do Porto, Portugal), Hiroyuki Watanabe (Universidade de Uppsala, Suécia), Liliana Carvalho (Universidade do Porto), e Olga Nosova e Daniil Sarkisyan (ambas da Universidade de Uppsala).

Inclui também os investigadores Mengliang Zhang e Marlene Storm Andersen (Universidade do Sul da Dinamarca), Elena A. Lukoyanova (Universidade do Porto), Vladimir Galatenko (Universidade Estatal de Moscovo Lomonosov, Rússia), Alex Tonevitsky (Escola Superior de Economia da Universidade Nacional de Investigação, Rússia), e Igor Bazov e Tatiana Iakovleva (ambas da Universidade de Uppsala).

Filhos de mulheres com hipertensão durante a gravidez têm um risco aumentado de AVC na idade adulta

Um estudo, que incluiu 5,8 milhões de crianças avaliadas ao longo de quatro décadas, mostrou que, na idade adulta, a incidência de acidente vascular cerebral (AVC) era maior nos indivíduos cujas mães tinham tido hipertensão arterial (HTA) ou pré-eclâmpsia na gravidez. Os resultados deste trabalho foram apresentados na ESC Heart & Stroke 2021, uma conferência online, que decorreu entre os dias 2 e 4 de junho, promovida pela European Society of Cardiology (ESC).

“O estudo indica que os filhos de mulheres com hipertensão durante a gravidez têm um risco aumentado de AVC e, potencialmente, de doença coronária após os 41 anos de idade”, afirmou a autora do estudo, a Dr.ª Fen Yang, estudante de Doutoramento no Karolinska Institutet, em Estocolmo, na Suécia. “É necessário conduzir estudos com um período de seguimento mais alargado, com o objetivo de confirmar estes resultados e de melhorar o entendimento em relação a possíveis mecanismos que estão subjacentes a estes achados.”

Estudos prévios sugeriam que as crianças nascidas de mães com hipertensão durante a gestação tinham um risco aumentado de nascimento prematuro, restrição do crescimento fetal e fatores de risco cardiovascular, nomeadamente pressão arterial elevada, obesidade e diabetes numa fase mais tardia da vida. Este estudo, que procurou avaliar a relação entre a HTA materna e o risco aumentado de AVC e doença coronária isquémica na idade adulta dos filhos, baseou-se em registos de base populacional de dois países: Suécia (1973-2014) e Finlândia (1987-2014). Os distúrbios hipertensivos incluíam pressão arterial elevada (com início antes ou durante a gravidez) e pré-eclâmpsia.

Dos 5,8 milhões de crianças avaliadas neste estudo, mais de 218 mil (3,76%) eram filhos/as de mães que tiveram distúrbios hipertensivos durante a gravidez. Após mais de 40 anos de follow-up, 2340 (0,04%) destes descendentes tinham sido diagnosticados com doença coronária isquémica e 5360 (0,09%) com AVC. Os investigadores concluíram que a exposição fetal à hipertensão na gravidez está associada a um risco 29% e 33% superior de doença coronária isquémica e de AVC, respetivamente. “Na eventualidade de estudos posteriores validarem estes achados, podemos começar a prevenção das doenças cardiovasculares nestas crianças nascidas de mães com HTA”, acrescentou a Dr.ª Fen Yang.

INEM encaminhou uma média de 13 casos por dia para a Via Verde do AVC de janeiro a outubro de 2020

O INEM encaminhou, em média, 13 casos por dia de acidente vascular cerebral (AVC) para a Via Verde do AVC, com um total de 3.982 casos registados e encaminhados para os hospitais desde o início do ano até dia 28 de outubro.

“As estatísticas demonstram que mais de 42% dos casos de AVC ocorreram nos distritos do Porto e Lisboa. O Hospital de Braga (300), o Hospital de São João (275), o Hospital de Santa Maria (274), o Hospital de São José (245) e o Hospital de Penafiel (229) foram as unidades hospitalares que receberam o maior número de casos de AVC encaminhados pelo INEM”, revela uma nota do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), recentemente divulgada.

O INEM reforça que o contexto de pandemia não elimina a “necessidade de os cidadãos continuarem a ligar 112 sempre que se verifique uma situação de doença súbita ou acidente”.

“Falta de força num braço, boca ao lado ou dificuldade em falar são os principais sinais e sintomas que podem indicar a ocorrência de um AVC. Se estes sinais forem reconhecidos, ligar o Número Europeu de Emergência – 112 é a atuação mais adequada, pois a rápida intervenção médica especializada é vital para o sucesso do tratamento e posterior recuperação do doente”, recorda o INEM.

Na nota, o Instituto lembra que o AVC continua a ser uma das principais causas de morte em Portugal e que “as primeiras horas após o início dos sintomas de AVC são essenciais para o socorro da vítima, pois é esta a janela temporal que garante a eficácia dos principais tratamentos”, recomendando um estilo de vida saudável que elimine o tabaco e o sedentarismo como forma de prevenção.

O papel da inteligência artificial no tratamento do AVC em destaque na 18.ª Reunião Anual da SPAVC

É já amanhã, dia 24 de outubro, que se realiza a 18.ª Reunião Anual da Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral (SPAVC), pela primeira vez em formato exclusivamente virtual. Manter uma ligação regular entre todos os profissionais de saúde que lidam com os doentes com acidente vascular cerebral (AVC) é o grande objetivo deste encontro nacional, onde serão debatidos temas atuais no campo da doença vascular cerebral, incluindo a análise de casos clínicos-problema.

“Numa primeira parte vamos falar do futuro do tratamento do AVC”, avançou o membro da direção da SPAVC, Vítor Tedim Cruz, explicando que, “como não podemos falar de tudo, optámos por abordar o papel da inteligência artificial (IA) na estruturação dos cuidados e processos de decisão no AVC e o futuro das estratégias para a recuperação do tecido cerebral lesado”.

Esta primeira sessão contará com a participação de um convidado internacional, o especialista dinamarquês da Universidade de Aharus, Kim Mouridsen, cujo trabalho se tem dedicado à aplicação prática de soluções de IA a processos de neuroimagem e decisão no AVC. “Com ele vamos poder perceber melhor como será o futuro mais próximo e quais as áreas por onde se iniciará esta transformação”, salientou o médico.

“Depois, vamos rever o diagnóstico, a classificação etiológica e a prevenção precoce do AVC. Na sessão final, vamos rever os diferentes tratamentos do AVC hemorrágico e o que pode ser determinante para melhorar o resultado final de um doente”.

Por sua vez, a vice-presidente da SPAVC, Patrícia Canhão, acrescentou que “também haverá a habitual mesa de apresentação de casos clínicos-problema para discussão e partilha de decisões.

No entender da neurologista, “o modelo virtual permite um maior número de participantes, pela facilidade do acesso à reunião e pelo desaparecimento de barreiras geográficas. É uma forma de levar a Reunião da SPAVC a outras audiências que não a conheciam ou não frequentavam, e de captar o seu interesse por esta Sociedade científica e suas atividades”.

A formação dos participantes no diagnóstico, tratamento e prevenção do AVC é apontada pela especialista como a principal meta do evento, para além de “manter uma ligação regular entre todos os profissionais que lidam com doentes com AVC e que há muito se habituaram a frequentar estas reuniões da SPAVC”.

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