Uso de aspirina: um fator de risco independente para o desenvolvimento de insuficiência cardíaca

O uso de aspirina é comum e está associado a um risco acrescido de insuficiência cardíaca (IC) em 26% em pessoas com pelo menos um fator de risco para a condição. Esta é a conclusão de um estudo publicado no ESC Heart Failure (Mujaj B, Zhang ZY, Yang WY, et al. ESC Heart Fail. 2021) uma revista da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC). Os fatores de risco incluíam o tabagismo, obesidade, tensão arterial elevada, colesterol elevado, diabetes, e doenças cardiovasculares.

“Este é o primeiro estudo a relatar que entre os indivíduos com pelo menos um fator de risco de IC, aqueles que tomavam aspirina tinham mais probabilidade de desenvolver posteriormente a doença do que aqueles que não usavam o medicamento”, salientou o autor do estudo, o Prof. Doutor Blerim Mujaj, da Universidade de Friburgo, Alemanha. “Embora os resultados careçam de confirmação, sugerem uma potencial ligação entre a aspirina e a IC que precisa de ser esclarecida, acresentou.

O impacto da aspirina na IC é controverso. Este estudo visou avaliar a sua relação com a incidência de IC em pessoas com e sem doença cardíaca e avaliar se a utilização do medicamento está relacionada com um novo diagnóstico de IC nas pessoas em risco.

A análise incluiu 30.827 indivíduos em risco de desenvolver IC que foram inscritos da Europa Ocidental e dos EUA no estudo HOMAGE. O risco de desenvolver IC foi definido como a presença de um ou mais dos seguintes fatores: tabagismo, obesidade, hipertensão arterial, colesterol elevado, diabetes e doenças cardiovasculares. Os participantes tinham igual ou superior a 40 e não apresentavam risco de IC na baseline. O uso de aspirina foi registado na inscrição e os participantes foram classificados como utilizadores ou não utilizadores. Os participantes foram acompanhados para a primeira incidência de IC fatal ou não fatal que exigiu hospitalização.

A idade média dos participantes era de 67 anos e 34% eram mulheres. Na baseline, um total de 7.698 participantes (25%) estavam a tomar aspirina. Durante o follow-up de 5,3 anos, 1.330 participantes desenvolveram IC.

Os investigadores avaliaram a associação entre o uso de aspirina e a incidência de IC após o ajuste para outros fatores de risco e encontraram uma associação independente do uso de aspirina a um risco acrescido de 26% de diagnóstico de novo de IC

Para verificar a consistência dos resultados, os investigadores repetiram a análise depois de combinarem utilizadores e não utilizadores de aspirina para fatores de risco de IC. Nesta análise comparativa, a aspirina foi associada a um risco acrescido em 26% de um novo diagnóstico de IC.A análise foi repetida depois de excluir os doentes com antecedentes de doença cardiovascular. Em 22.690 participantes (74%) livres de doenças cardiovasculares, a utilização de aspirina foi associada a um aumento de 27% do risco de incidência de IC.

A este respeito, o autor comentou: “Este foi o primeiro grande estudo a investigar a relação entre o uso de aspirina e a incidência de IC em indivíduos com e sem doença cardíaca e com um ou mais fatores de risco. Nesta população, o uso de aspirina esteve associado à incidência de IC, independentemente de outros fatores de risco”.Contudo, o Prof. Doutor Blerim Mujaj advertiu: “São necessários grandes ensaios multinacionais aleatorizados em adultos em risco de IC para verificar estes resultados. Até lá, as nossas observações sugerem que a aspirina deve ser prescrita com cautela nos doentes com IC ou com fatores de risco para a doença”.

Aspirina para prevenir primeiro enfarte ou AVC apenas em casos de risco

A toma regular da aspirina para prevenir um primeiro ataque cardíaco ou um acidente vascular cerebral (AVC) deve ser feita apenas por quem apresenta elevado risco cardiovascular e mediante acompanhamento médico.

“Só num grupo restrito de pessoas com muito risco (…) pode ser benéfico fazer aspirina antes de qualquer evento cardiovascular”, adiantou à Lusa o coordenador do Grupo de Estudo de Tromboses e Plaquetas (GETP) da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), Rui Guerreiro.

Segundo o médico, nas pessoas que nunca sofreram um enfarte ou um AVC, os últimos estudos mostram que, apesar de o medicamento prevenir “a ocorrência destes eventos, tem um custo significativo” de aumento da possibilidade de hemorragias, principalmente ao nível gastrointestinal.

“Esta prática clínica em prevenção primária já não é atual. Desde há alguns anos que temos esta informação e as recomendações traduzem exatamente isso. É uma prática que tem vindo a ser abandonada com base nos últimos estudos”, explicou o cardiologista.

Relativamente a quem já fez um enfarte ou um AVC, o membro da SPC avançou que estas pessoas “continuam a ter indicação para fazer aspirina”, por prescrição e com acompanhamento médico.

A aspirina torna o sangue mais fino, o que evita a formação de coágulos sanguíneos e ajuda a reduzir o risco de ataque cardíaco ou AVC.

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