Ana Teresa Timóteo: Controlo adequado dos fatores de risco continua a ser a principal arma contra a DCV

“De uma maneira geral, e ao longo dos anos, o Dia Mundial do Coração tem sido, por excelência, um momento de oportunidade para a prevenção de doenças cardiovasculares (DCV) e para a promoção de um estilo de vida saudável”.

Quem o diz é a secretária-geral da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), Ana Teresa Timóteo, a propósito da efeméride comemorada a 29 de setembro, no âmbito da qual a SPC promove um conjunto de atividades, onde se incluem rastreios ao colesterol.

Em entrevista ao Jornal Médico, a cardiologista do Hospital de Santa Marta/Centro Hospitalar de Lisboa Central salienta que o controlo dos fatores de risco como a hipertensão arterial (HTA) e o colesterol continua a ser a principal forma de combater as DCV, que permanecem como a principal causa de morte em Portugal.

De acordo com a também professora da NOVA Medical School, “a obesidade é um dos fatores de risco para DVC que tem vindo a aumentar, nos últimos anos”. Já o tabagismo “tem vindo a diminuir globalmente, embora nas mulheres tenha aumentado”.  No que ao colesterol diz respeito, a especialista refere que, à semelhança da HTA, “o controlo está longe de ser o adequado, existindo ainda um longo caminho nesse sentido”.

Face ao atual contexto de pandemia, Ana Teresa Timóteo considera que “obviamente que a partir do momento em que a acessibilidade das pessoas aos serviços de saúde foi reduzida, é expetável que o controlo dos fatores de risco esteja mais comprometido”.

Por outro lado, sublinha, “o facto de as pessoas terem estado em confinamento também diminuiu os níveis de atividade física, entre outros fatores de risco, o que poderá eventualmente resultar num aumento de problemas relacionados com a prevenção cardiovascular”.

Dia Mundial do Coração: Sociedade Portuguesa de Cardiologia assinala data com rastreios ao colesterol

A Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) promove hoje, dia 29 de setembro – por ocasião do Dia Mundial do Coração -, em Alfragide, um rastreio para alertar a população sobre os efeitos nefastos do colesterol, que considera um “inimigo silencioso” da saúde cardiovascular.

Também neste âmbito, e até 4 de outubro, decorrerá uma campanha destinada a transmitir informação sobre os efeitos nefastos do colesterol elevado na saúde cardiovascular, bem como, à realização de rastreios gratuitos através da avaliação dos níveis de colesterol e de outros parâmetros de saúde que podem contribuir para o risco cardiovascular (RCV).

“Sendo o colesterol elevado um dos principais fatores de risco modificáveis nas doenças cardiovasculares, a SPC vai ainda lançar uma campanha digital que contará com a colaboração de influenciadores digitais e divulgar um vídeo de sensibilização” nos cinemas, de 1 a 7 de outubro”, anunciou a sociedade médica.

“Vigiar os níveis de colesterol, a saúde cardiovascular e prevenir estas patologias através da adoção de uma alimentação e estilo de vida saudáveis” são os princípios básicos a observar, acrescentou a mesma fonte.

“Segundo dados do Ministério da Saúde 63,3% dos portugueses entre os 25 e os 74 anos apresentam níveis elevados de colesterol. Em Portugal, as doenças cardiovasculares são responsáveis por 29,5% das mortes, sendo que o enfarte do miocárdio mata, em média, 12 pessoas por dia. Ter o colesterol muito elevado pode significar estar em risco iminente de sofrer um enfarte do miocárdio ou um acidente vascular cerebral (AVC)”, pode ler-se no documento da SPC a que o Jornal Médico teve acesso.

Citando dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), a SPC alerta que anualmente morrem cerca de 33 mil pessoas devido a doenças cardiovasculares, que continuam a ser a principal causa de morte em Portugal, representando cerca de um terço de todos os óbitos.

Manuel Carrageta: “A gravidade da Covid-19 não deve obscurecer outras pandemias, em grande medida evitáveis, como a das DCV”

Nunca é demais relembrar que, pelo facto de haver uma pandemia de Covid-19, não vão deixar de continuar a ocorrer enfartes agudos do miocárdio e acidentes vasculares cerebrais. O alerta parte do presidente da Fundação Portuguesa de Cardiologia, Manuel Carrageta, que em vésperas do Dia Mundial do Coração – que se assinala a 29 de setembro – conversou com o Jornal Médico sobre o impacto da infeção pelo SARS-CoV-2 na prevenção e tratamento das doenças cardiovasculares.

 

JORNAL MÉDICO (JM) | Quais as principais doenças cardíacas que afetavam a população portuguesa na era pré-Covid e quais as que se intensificaram no último semestre?

MANUEL CARRAGETA (MC) | As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte a nível nacional, sendo responsáveis por mais de um terço da mortalidade total. Mesmo em tempo de pandemia por Covid-19, não podemos ignorar que morrem cerca de 100 pessoas por dia, em Portugal, devido a doença cardiovascular (DCV).

 

JM | Verificou-se um aumento na mortalidade por DCV decorrente da pandemia por Covid-19?

MC | De acordo com números oficiais, até ao final de agosto morreram 1.822 pessoas de Covid-19 em Portugal e observou-se um excesso de 4.445 mortes por outras doenças, acima da média do número de óbitos dos últimos cinco anos.

Uma grande parte deste número elevado de mortes foi causada por doenças com elevada letalidade, tais como, o enfarte agudo do miocárdio (EAM) e o acidente vascular cerebral (AVC), que são altamente evitáveis através do controlo dos fatores de risco. Por outro lado, a luta contra o cancro, a segunda causa de morte em Portugal, depende essencialmente do diagnóstico precoce para ter sucesso, o que com consultas e exames adiados, ficou comprometido.

 

JM | Que fatores psicossociológicos e patológicos provocaram o aumento das doenças cardíacas no período pós-Covid?

MC | Embora seja normal que os doentes se sintam ansiosos e assustados com o risco desta infeção, é da maior importância, como já dissemos, manter um estilo de vida saudável. Fazer uma alimentação saudável, praticar exercício diário, não fumar, dormir o suficiente e procurar reduzir o stress, aumenta a resistência ao vírus e é fundamental também para reduzir o risco de um conjunto de doenças, nomeadamente as cardiovasculares, que são responsáveis por um número de mortes muito superior à Covid -19. Não é demais insistir que, no caso de contrairem a infeção, estar o mais saudável e controlado possível da sua DCV, ajuda a resistir melhor ao vírus, pelo que devem continuar a tomar a medicação e a visitar o médico com a mesma regularidade com que o faziam antes da pandemia.

 

JM | Quais os maiores desafios sentidos pelos médicos cardiologistas, no acompanhamento prestado aos seus doentes nesta fase de pandemia?

MC | As queixas cardíacas de falta de ar e de cansaço podem ser sintomas de Covid-19, mas também podem dever-se, por exemplo, a insuficiência cardíaca, o que levanta dificuldades diagnósticas. Alguns doentes idosos ou mais frágeis com Covid-19 podem não ter febre e manifestar sintomas atípicos bastante inespecíficos – tais como, confusão mental, quedas, entre outros – o que, por si só, não levanta suspeita da presença da infeção.

Para além da existência de DCV se associar a maior risco de morte nos infetados com o vírus SARS-CoV-2, também a Covid-19 causa com frequência várias complicações cardiovasculares, nomeadamente, miocardites, arritmias, tromboembolismo e até EAM. Por outro lado, alguns dos fármacos que estão a ser utilizados no tratamento da Covid-19 podem ter efeitos secundários cardiovasculares, tais como, provocar ou agravar a insuficiência cardíaca, prolongar o intervalo QT, causar arritmias, entre outros. Portanto, pelo facto de se ser doente do coração, no caso de contrair a Covid-19, está em risco de ter uma infeção mais grave.

 

JM | Qual é a necessidade de consciencializar a população para os cuidados a ter com o seu coração?

MC | Muitos doentes com problemas graves de saúde, em grande parte por medo de contágio por Covid-19 e pelas ordens para “ficarem em casa”, evitaram ou dirigiram-se, só em fases tardias das suas doenças, às unidades de saúde e aos hospitais, o que contribuiu seguramente para o aumento da mortalidade global.

É um facto que, durante estes primeiros meses de pandemia, a procura das urgências e das consultas de Cardiologia, como tem sido largamente noticiado, diminuiu de forma acentuadíssima. Muitas destas mortes poderiam ter sido evitadas com a instituição, no momento devido, de cuidados médicos preventivos e especializados.

 

JM | O evento promovido pela FPC, Quinzena do Coração – no âmbito do Dia Mundial do Coração, que se assinala a 29 de setembro – segue a linha proposta pela World Heart Federation. Acredita que este tipo de iniciativas de sensibilização da população tem uma relação direta na diminuição da prevalência das DCV?

MC | A inegável gravidade da pandemia de Covid-19 não deve obscurecer outras pandemias, como as cardiovasculares, que são em grande medida evitáveis. Apesar da ignorância que ainda existe sobre a SARS-CoV-2, é bem conhecido que esta infeção pode causar doença vascular provocada pela resposta imunitária e pela libertação de citoquinas inflamatórias. Em consequência, os doentes podem sofrer EAM, miocardites, insuficiência cardíaca, AVC e também doenças de outros órgãos.

A adoção de medidas de estilo de vida saudável e o controlo dos fatores de risco um efeito duplo, ao contribuir não só para reduzir as DCV, como também para ajudar na luta contra a Covid-19. Os doentes idosos mais robustos e com os fatores de risco controlados (hipertensão, obesidade e diabetes) têm, não só menor risco de sofrer de complicações da Covid-19, como de morrer de doença cardiovascular.

Infelizmente, continua a verificar-se uma baixa procura deste apoio médico não só preventivo como especializado, pelo que se torna necessário tomar medidas, nomeadamente desenvolver campanhas que esclareçam a população sobre a necessidade de continuar a prevenir e controlar as DCV, que são a pandemia que mais mata em Portugal.

Não é demais insistir que, no caso de alguém contrair a infeção, estar o mais saudável e controlado possível da sua DCV, ajuda a resistir melhor ao vírus, pelo que o doente deve continuar a tomar a medicação e visitar o médico com a mesma regularidade que fazia antes da pandemia surgir. Para terminar, lembramos que, pelo facto de haver uma pandemia de Covid-19, não vão deixar de continuar a ocorrer EAM e AVC.

Fundação Portuguesa de Cardiologia reforça importância de cuidar do coração em tempo de pandemia

A propósito do Dia Mundial do Coração – efeméride assinalada anualmente a 29 de setembro –, a Fundação Portuguesa de Cardiologia (FPC) vai promover a Quinzena do Coração, uma campanha sob o mote “Use o coração para prevenir as doenças cardiovasculares” que consistirá em múltiplas iniciativas a nível nacional.

O objetivo é sensibilizar a população para a importância de cuidar do coração, um ato que assume uma importância ainda maior numa altura em que o mundo enfrenta uma pandemia.

“Os sistemas de saúde, os profissionais de saúde e a população têm vivido tempos muito difíceis e é muito importante continuarmos a promover iniciativas capazes de consciencializar cada vez mais a população para a importância de cuidarmos dos nossos corações. A Covid-19 é responsável por várias complicações graves nos doentes cardiovasculares, como é o caso das miocardites, arritmias, tromboembolismo e enfartes do miocárdio. Sabemos também que estes doentes têm um maior risco de morte no caso de infeção por Covid-19, pelo que a Fundação Portuguesa de Cardiologia quer fazer a diferença e diminuir o impacto desta pandemia neste grupo de risco”, sublinha o presidente da FPC, Manuel Carrageta.

Ao longo de 15 dias, e no âmbito desta campanha, a FPC vai partilhar nas suas redes sociais um conjunto de vídeos que abordam as mais variadas temáticas, desde a importância da atividade física em seniores e nos jovens até à alimentação saudável, passando pela hipertensão arterial ou o suporte básico de vida, entre outros.

Alguns destes vídeos, contam com a colaboração da Federação de Ginástica de Portugal e da Federação Portuguesa de Atletismo. Quem também se vai juntar à FPC nesta Quinzena do Coração são os chefs Justa Nobre e Chakall que darão o seu contributo em vídeo com a partilha de receitas saudáveis.

A Fundação Portuguesa de Cardiologia vai ainda promover um webinar, no dia 29 de setembro, pelas 18h30, dedicado à temática “Doentes cardíacos e Covid-19”.

Ainda no dia 29 de setembro, a FPC – em parceria com a Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC) e a Câmara Municipal de Peniche – assinalam a efeméride com um conjunto de atividades associadas à promoção da atividade física.

O mote da Quinzena do Coração segue a linha proposta pela World Heart Federation para comemorar a efeméride em 2020. De acordo com esta entidade internacional, “vivemos atualmente tempos sem precedentes, nos quais sistemas de saúde e profissionais de saúde foram desafiados ao limite, sendo agora mais importante do que nunca que a população tenha um papel fundamental e cuide do seu coração e dos seus familiares e amigos, consciencializando todos à sua volta para a importância deste gesto”.

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