João Brum da Silveira: Proteja o seu coração. Deixe de fumar

O médico e presidente da Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular (APIC), João Brum da Silveira, antecipa o Dia Nacional do Não Fumador, que se assinala a 17 de novembro, relembrando que o  tabaco é um dos fatores de risco para o enfarte agudo do miocárdio (EAM) e outras doenças cardíacas.

O tabagismo causa um grande prejuízo à saúde pública, uma vez que é responsável pela diminuição da qualidade e duração de vida da população que fuma. Além disso, tem ainda a agravante de ser um fator de risco não apenas para o fumador, mas para todos aqueles que se encontram frequentemente expostos ao fumo passivo.

Assim sendo, deixar de fumar é uma medida preventiva eficaz para diminuir os riscos de EAM e de muitas outras patologias causadoras de morbilidade e mortalidade.

O EAM – vulgarmente apelidado de ataque cardíaco – resulta da obstrução de uma das artérias do coração, que faz com que uma parte do músculo cardíaco fique em sofrimento por falta de oxigénio e nutrientes. Esta obstrução é habitualmente causada pela formação de um coágulo devido à rutura de uma placa de colesterol.

Os sintomas mais comuns, para os quais as pessoas devem estar despertas, são a dor no peito, por vezes com irradiação ao braço esquerdo, costas e pescoço, acompanhada de suores, náuseas, vómitos, falta de ar e ansiedade. Normalmente, os sintomas duram mais de 20 minutos, mas também podem ser intermitentes. Podem ocorrer de forma repentina ou gradualmente, ao longo de vários minutos.

Na presença destes sintomas é importante ligar imediatamente para o número de emergência médica (112) e esperar pela ambulância que estará equipada com aparelhos que registam e monitorizam a atividade do coração e permitem diagnosticar o enfarte. Não deve tentar chegar a um hospital pelos seus próprios meios porque este poderá ser um centro sem capacidade para realizar o tratamento mais adequado. Esta situação não acontece quando se liga para o 112 porque a equipa de emergência confirma a suspeita de um enfarte e ativa a via verde coronária que permite encaminhar os doentes para hospitais com laboratórios de hemodinâmica.

Não se esqueça, no EAM cada segundo conta. É importante a precocidade no diagnóstico (valorização dos sintomas), o que implica um tratamento mais rápido com redução significativa da quantidade de músculo cardíaco “perdido”, o que leva a que os doentes tenham um melhor prognóstico, isto é, que voltem a ter uma vida “normal”.

Victor Gil: Redução de 1/4 nas intervenções por enfarte agudo do miocárdio devido à pandemia é “preocupante”

O presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), Victor Gil, alertou, a 11 de novembro, para a ocorrência de uma redução de um quarto no número de intervenções em fase aguda de enfarte o que, no entender do especialista, terá contribuído para o excesso de mortalidade observada este ano.

“Estes enfartes agudos do miocárdio (EAM) que poderiam ser tratados, alguns provavelmente não chegam ao hospital e as pessoas morrem em casa, e outros acabarão por aparecer em fases mais tardias, em que a evolução para insuficiência cardíaca (IC) já poderá ser inevitável”, sublinhou o cardiologista, para quem esta situação terá contribuído para o excesso de mortes observadas desde o início da pandemia de Covid-19, em março.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgados a 30 de outubro referem que, desde março, morreram em Portugal 72.519 pessoas, mais 7.396 do que a média do período homólogo dos cinco anos anteriores, sendo a Covid-19 responsável por 2.198 óbitos (27,5% do total).

Fazendo uma comparação dos últimos três anos, a SPC observou que “há uma diminuição de um quarto do número de intervenções em fase aguda de enfarte”, desde o início da pandemia. Anualmente morrem em Portugal cerca de 33 mil pessoas devido a doenças cardiovasculares, que continuam a ser a principal causa de morte no país, representando cerca de um terço de todos os óbitos.

Os cardiologistas estão “muito preocupados” desde que começaram a constatar que, em consequência das recomendações que faziam aos doentes para estarem confinados, começou a haver nas situações agudas “uma grande diminuição de urgências e, particularmente, de EAM”, que mata, em média, 12 pessoas por dia em Portugal.

“O EAM é uma situação passível de ser tratada se a pessoa pedir socorro cedo, mas se isso não acontecer podem ocorrer arritmias graves, que podem conduzir a uma morte súbita”, sublinhou o responsável da SPC.

Portanto, observou, “sete mil e tal mortos não é uma coisa que aconteça por acaso” e “dois terços são mortes não-Covid. Estamos a falar de muitas situações em que as pessoas acabam por morrer por circunstâncias várias”.

Victor Gil lembrou que os doentes crónicos “não são todos iguais”: “Uma coisa é uma pessoa que tem um lipoma ou uma hérnia que enfim, tira hoje, amanhã, ou daqui a três meses, outra coisa é uma pessoa que tem uma estenose aórtica grave”, que tem “uma janela de oportunidade para ser tratada” e que se isso não acontecer morre ou entra em descompensação aguda com “risco de mortalidade elevadíssimo”.

O mesmo se passa em relação à doença coronária, “em que pode ter passado a fase aguda, mas ainda haver necessidade de intervenção, o que, apesar de ser uma atividade programada, não é o mesmo que tirar um quisto da pele”, referiu o especialista, acrescentando que “há situações verdadeiramente muito graves, mas também há muitas situações em que as pessoas estão apenas muito nervosas e nos contactam por tudo e por nada e que estão a dificultar um bocadinho a nossa disponibilidade para as situações mais grave e aqui também deixo um grande apelo à serenidade dos próprios doentes”.

O médico alertou ainda para os atrasos nos tratamentos devido ao confinamento, advertindo que os doentes mais críticos que estão há algum tempo sem acompanhamento e quando voltarem estarão “numa fase pior de evolução da sua doença, com consequências piores”.

“Se não houver um acompanhamento adequado perde-se os diagnósticos, nós estamos a falar de vidas reais. Compreendo que estamos todos dominados pela Covid – e é uma situação dramática – mas, de facto, cancelar a atividade deve ser o último dos últimos recursos”, defendeu.

Na sua opinião, deveriam ter sido antecipados cenários que se sabia que iam acontecer para tentar encontrar alternativas para não suspender a atividade, admitindo, contudo, que “em cima da crise às vezes inventar soluções é difícil” e que “a última coisa que se faz numa crise é entrar em pânico”.

“A suspensão da atividade em termos de agudos é dramática, mas isso ainda não está a acontecer, as vias verdes estão abertas, o INEM tem-se desdobrado para estar em todas”, são “super-homens e supermulheres como são os colegas dos cuidados de saúde primários e da saúde pública”, enalteceu.

Para Victor Gil, o “esforço tremendo” que os médicos de família e de saúde pública estão a fazer no seguimento dos contactos se calhar já não faz sentido nesta fase. “As pessoas têm de realocar recursos de acordo com a fase em que estão”, disse, defendendo que “os diretores de serviço devem ter um papel essencial na decisão e na seleção das prioridades”, advogou.

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