Telemedicina na gestão da Insuficiência Cardíaca – o futuro é já hoje

“O padrão atual de cuidados da IC é a integração dos especialistas de ambulatório e hospitalares numa equipa multidisciplinar que possa providenciar cuidados contínuos sem falhas na comunicação”, começou por afirmar José Silva Cardoso, por ocasião da sessão dedicada à insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, no Congresso Português de Cardiologia 2021, durante a qual abordou as estratégias atuais da telemedicina no contexto da cardiologia.

“Estes cuidados multidisciplinares integrados podem ser expandidos através da telemedicina, permitindo a gestão remota do doente”, assim sublinhou o cardiologista do Centro Hospitalar e Universitário de São João, sendo que as estratégias atuais de telemedicina na IC incluem não só soluções para a gestão dos doentes – teleconsulta, telemonitorização e tele-reabilitação -, como também para a gestão das equipas – registos eletrónicos do doente partilhados, teleconferências e contactos eletrónicos partilhados.

A teleconsulta permite avaliar sintomas, sinais vitais e resultados de análises ao sangue, reduz a carga organizacional e permite contacto mais frequente com os doentes. É particularmente útil na rápida iniciação e titulação da terapêutica para IC, no acompanhamento rigoroso de doentes hemodinamicamente instáveis, na redução das consultas presenciais em doentes estáveis e no contacto próximo com doentes em cuidados paliativos.

Quanto à telemonitorização, o seu principal propósito é a deteção precoce da descompensação hemodinâmica, evitando assim hospitalizações. Utiliza uma abordagem multiparamétrica, com monitorização invasiva ou não-invasiva, e requer que o doente adira a uma rotina diária. Outras utilizações da telemonitorização incluem a deteção de arritmias, a educação e capacitação do doente e o aumento da adesão à terapia. A telemonitorização demonstrou ser capaz de reduzir as hospitalizações e ter um impacto na mortalidade dos doentes (Zhu et al., Heart Fail Rev 2020).

A reabilitação cardíaca tem indicação de classe I na IC, mas não tem viabilidade para ser implementada porque não existe um número suficiente de centros para promover a reabilitação em pessoa dos doentes com IC na Europa. A tele-reabilitação permite que esta seja feita em casa, com ou sem telemonitorização, funcionando como uma alternativa/complemento à reabilitação feita em centros, e demonstrou melhorar a capacidade funcional e a qualidade de vida dos doentes (Imran et al., J Am Heart Assoc 2019).

Registos médicos eletrónicos e teleconferências permitem uma comunicação ágil entre especialistas nos hospitais e nos cuidados de saúde primários, com partilha de informação clínica em tempo real. Os registos médicos eletrónicos poderão permitir uma recolha automática dos dados médicos do doente, possibilitando a criação de registos contínuos de IC, o que por sua ver permitirá uma avaliação comparativa entre centros de IC.

“A telemedicina em IC será certamente um complemento ao tratamento convencional e uma via para intensificar o tratamento multidisciplinar integrado da IC, visando uma abordagem personalizada”, concluiu o orador.

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