Victor Gil: “Convenientemente utilizado, o digital permite-nos ser mais humanos”

O Congresso Português de Cardiologia (CPC2020), que decorreu de 6 a 8 de novembro, contou com mais de 3600 participantes inscritos – desde médicos e doentes, passando por simples curiosos do tema. O Jornal Médico esteve à conversa com o presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), Victor Gil, que nos fez um balanço deste evento magno da Medicina em Portugal.

 

JORNAL MÉDICO (JM) | Que balanço faz do CPC2020, o primeiro Congresso Português de Cardiologia em formato inteiramente digital, que contou com o maior número de participantes, resumos de comunicação livres e de casos clínicos?

VICTOR GIL (VG) | O balanço é inquestionavelmente positivo. Este congresso passou por muitas fases organizativas: inicialmente pensámos que ainda fosse possível realizá-lo num formato presencial, à semelhança dos outros. Depois ponderámos um modelo misto, até que finalmente entendemos que o congresso teria forçosamente que se realizar em formato exclusivamente virtual.

O número de comunicações traduz, de facto, a vitalidade da Cardiologia portuguesa. Outros dos indicadores é a frequência com que nomes portugueses e trabalhos aparecem em revistas estrangeiras do mais alto nível. Partimos de um patamar mais elevado e a nossa Cardiologia está, indubitavelmente, de parabéns.

O aumento do número de inscrições foi também facilitado pelas condições logísticas. O facto de uma pessoa poder assistir de forma gratuita e no conforto da sua casa facilita, obviamente, a participação no evento.

De todo o modo, o que nos interessa num congresso e o seu mais importante vetor é a possibilidade de partilha e difusão de conhecimento. E, nesse aspeto, acredito que esta possibilidade de complementaridade, entre formato virtual e presencial, veio para ficar.

 

JM | Debateram-se temas major da Cardiologia a nível nacional e mundial, como a insuficiência cardíaca e a doença coronária. Quais foram os principais temas onde os mais de 3600 participantes inscritos tiveram uma voz mais ativa?

VG | Considero que há duas formas de avaliarmos essa questão. Uma delas é através dos números e, portanto, as salas mais frequentadas foram as salas que mais têm interesse generalizado, mesmo fora do mundo da Cardiologia, como é o caso do tema da insuficiência cardíaca (IC).

Mas, há temas que podem não interessar a tantas pessoas, em termos de número, e, no entanto, serem temas do mais alto interesse para os seus participantes como, por exemplo, a mesa-redonda que organizámos com os países africanos de expressão portuguesa, bem como as sessões promovidas em conjunto com a Sociedades Brasileira de Cardiologia e com a Sociedade Europeia de Cardiologia. São reuniões que têm uma visibilidade grande, que pode ser ainda maior a posteriori.

Para além de temas iminentemente clínicos, como a IC, as arritmias e a cardiologia de intervenção, houve dois ou três temas mais organizacionais muito interessantes. Nomeadamente a sessão dedicada aos modelos de formação do cardiologista, que contou com a presença do presidente do Colégio da Especialidade de Cardiologia – ainda que infelizmente o Sr. Bastonário que era para ter estado presente, mas não pode. Outro tema muito interessante foi uma reunião, que contou com imensa participação no nosso chat, sobre o papel da liderança médica.

 

JM | Vários foram os desafios que o CPC teve de enfrentar na sua edição de 2020. Quais considera que foram os principais?

VG | Já referi várias vezes a tenacidade da Dr.ª Brenda Moura e da sua equipa e não me canso de o fazer. A sua resiliência foi fundamental, pois o congresso foi para nós um grande ponto de interrogação, sendo que do ponto de vista técnico havia a questão se tudo isto seria possível, sendo que um congresso desta dimensão nunca tinha sido feito em Portugal.

O CPC é um congresso que habitou, desde há muito tempo, os seus participantes a um alto nível de qualidade em termos de conteúdos. Eu penso que é reconhecido como o encontro com mais impacto em termos cardiovasculares e, simultaneamente, uma das reuniões médicas mais prestigiadas no país. Avaliamos essa qualidade também pelos comentários por parte de colegas estrangeiros que convidamos para vir a Portugal, que são figuras “topo de gama”, e que ficam espantados com a qualidade das temáticas apresentadas. Manter essa qualidade num formato completamente novo foi o maior desafio, mas tive a certeza, logo às seis da tarde do primeiro dia, que essa batalha estava ganha.

 

JM | Nos três dias de congresso houve um total de 76 sessões, congregando cerca de 200 palestras e 420 trabalhos originais. Que temas originais foram debatidos e que podem influenciar o futuro da Cardiologia e da Medicina, em geral, em Portugal?

VG | Tivemos grandes desenvolvimentos recentes na área da IC, com novos fármacos que já estão a ser implementados na rotina das pessoas, bem como terapêuticas de intervenção que já estão completamente implantadas, sendo a sua maior dificuldade não haver ainda capacidade de resposta adequada.

Mais do que o congresso deixar nos médicos a vontade de tratar as pessoas de acordo com o estado da arte, agora importa é que as estruturas, nomeadamente o Serviço Nacional de Saúde (SNS), consigam responder adequadamente. Neste momento existe uma lista de espera para cirurgia cardíaca absolutamente insustentável e, por vezes, com situações graves potencialmente curáveis, em que alguns desses doentes acabam por morrer sem nunca serem tratados. Esta é talvez a nossa maior preocupação enquanto cardiologistas.

 

JM | Considera que a investigação científica na área da Cardiologia está na sua melhor fase?

VG | Não, a investigação passou por uma fase menos boa. Houve vários anos em que a investigação parecia estar a marcar passo e, ultimamente, houve de novo notícias muito interessantes em vários campos da Cardiologia. Vai ser difícil superar aquilo que eu chamo os “anos 80”, em que tudo aconteceu de novo, com uma quantidade imensa de desenvolvimentos extraordinários, que mudaram drasticamente o panorama da Cardiologia.

É verdade que já passámos por uma fase pior e agora estamos, de novo, numa fase muito excitante em termos de resultados, em que estão a aparecer resultados muito interessantes. Espero que não seja a melhor, pois isso para mim, que já estou numa fase adiantada da minha carreira, significa que a seguir a nós virão coisas muito boas e isso é uma crença no futuro que eu gostaria de manter, portanto espero que essa não seja a melhor fase.

 

JM | A atual situação, pela qual estamos a passar, demonstra que fazermos prognósticos por vezes torna-se complicado, tendo em conta que pode surgir um acontecimento que muda, de alguma forma o rumo das nossas vidas.

VG | Tem toda a razão, mas temos que perceber que estamos a passar por uma situação transitória e isto irá acabar. Deram-se acontecimentos terríveis ao longo da nossa história, grande parte delas por culpa do Homem.

Vê-se também agora a extraordinária capacidade do pensamento humano, que conseguiu em tempo record produzir vacinas, que era algo que demorava anos e anos no passado. É verdade que pelo meio há sempre sacrificados e nós esperamos sempre que eles sejam no menor número possível. E o mundo continua mesmo depois de nós passarmos por cá e o objetivo é deixarmos o nosso contributo. A SPC e o congresso em geral têm muito esse espírito e é o que tentamos fazer a cada ano e, em cada atividade.

 

JM | Como vê o futuro da Cardiologia daqui a 20 anos?

VG | Isso é um tema para um outro debate… A Cardiologia do futuro vai ser muito diferente da Cardiologia atual e podemos tentar antecipar cenários, mas isso abre-nos tema para uma outra conversa. Não há dúvida que algumas coisas do futuro já estão antecipadas pelo presente, falando por exemplo do digital que veio mesmo para ficar.

Há pessoas que temem um pouco o digital, achando que este nos desumaniza. Eu considero que o digital tem de ser convenientemente utilizado, para nos ajudar a sermos mais humanos, porque nos pode libertar das tarefas mecânicas que a máquina pode fazer, para nós médicos, nos dedicarmos a sermos mais humanos. E a esperança que eu tenho é de continuar a trilhar esse caminho nos anos que ainda me restam.

Victor Gil: Redução de 1/4 nas intervenções por enfarte agudo do miocárdio devido à pandemia é “preocupante”

O presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia (SPC), Victor Gil, alertou, a 11 de novembro, para a ocorrência de uma redução de um quarto no número de intervenções em fase aguda de enfarte o que, no entender do especialista, terá contribuído para o excesso de mortalidade observada este ano.

“Estes enfartes agudos do miocárdio (EAM) que poderiam ser tratados, alguns provavelmente não chegam ao hospital e as pessoas morrem em casa, e outros acabarão por aparecer em fases mais tardias, em que a evolução para insuficiência cardíaca (IC) já poderá ser inevitável”, sublinhou o cardiologista, para quem esta situação terá contribuído para o excesso de mortes observadas desde o início da pandemia de Covid-19, em março.

Dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) divulgados a 30 de outubro referem que, desde março, morreram em Portugal 72.519 pessoas, mais 7.396 do que a média do período homólogo dos cinco anos anteriores, sendo a Covid-19 responsável por 2.198 óbitos (27,5% do total).

Fazendo uma comparação dos últimos três anos, a SPC observou que “há uma diminuição de um quarto do número de intervenções em fase aguda de enfarte”, desde o início da pandemia. Anualmente morrem em Portugal cerca de 33 mil pessoas devido a doenças cardiovasculares, que continuam a ser a principal causa de morte no país, representando cerca de um terço de todos os óbitos.

Os cardiologistas estão “muito preocupados” desde que começaram a constatar que, em consequência das recomendações que faziam aos doentes para estarem confinados, começou a haver nas situações agudas “uma grande diminuição de urgências e, particularmente, de EAM”, que mata, em média, 12 pessoas por dia em Portugal.

“O EAM é uma situação passível de ser tratada se a pessoa pedir socorro cedo, mas se isso não acontecer podem ocorrer arritmias graves, que podem conduzir a uma morte súbita”, sublinhou o responsável da SPC.

Portanto, observou, “sete mil e tal mortos não é uma coisa que aconteça por acaso” e “dois terços são mortes não-Covid. Estamos a falar de muitas situações em que as pessoas acabam por morrer por circunstâncias várias”.

Victor Gil lembrou que os doentes crónicos “não são todos iguais”: “Uma coisa é uma pessoa que tem um lipoma ou uma hérnia que enfim, tira hoje, amanhã, ou daqui a três meses, outra coisa é uma pessoa que tem uma estenose aórtica grave”, que tem “uma janela de oportunidade para ser tratada” e que se isso não acontecer morre ou entra em descompensação aguda com “risco de mortalidade elevadíssimo”.

O mesmo se passa em relação à doença coronária, “em que pode ter passado a fase aguda, mas ainda haver necessidade de intervenção, o que, apesar de ser uma atividade programada, não é o mesmo que tirar um quisto da pele”, referiu o especialista, acrescentando que “há situações verdadeiramente muito graves, mas também há muitas situações em que as pessoas estão apenas muito nervosas e nos contactam por tudo e por nada e que estão a dificultar um bocadinho a nossa disponibilidade para as situações mais grave e aqui também deixo um grande apelo à serenidade dos próprios doentes”.

O médico alertou ainda para os atrasos nos tratamentos devido ao confinamento, advertindo que os doentes mais críticos que estão há algum tempo sem acompanhamento e quando voltarem estarão “numa fase pior de evolução da sua doença, com consequências piores”.

“Se não houver um acompanhamento adequado perde-se os diagnósticos, nós estamos a falar de vidas reais. Compreendo que estamos todos dominados pela Covid – e é uma situação dramática – mas, de facto, cancelar a atividade deve ser o último dos últimos recursos”, defendeu.

Na sua opinião, deveriam ter sido antecipados cenários que se sabia que iam acontecer para tentar encontrar alternativas para não suspender a atividade, admitindo, contudo, que “em cima da crise às vezes inventar soluções é difícil” e que “a última coisa que se faz numa crise é entrar em pânico”.

“A suspensão da atividade em termos de agudos é dramática, mas isso ainda não está a acontecer, as vias verdes estão abertas, o INEM tem-se desdobrado para estar em todas”, são “super-homens e supermulheres como são os colegas dos cuidados de saúde primários e da saúde pública”, enalteceu.

Para Victor Gil, o “esforço tremendo” que os médicos de família e de saúde pública estão a fazer no seguimento dos contactos se calhar já não faz sentido nesta fase. “As pessoas têm de realocar recursos de acordo com a fase em que estão”, disse, defendendo que “os diretores de serviço devem ter um papel essencial na decisão e na seleção das prioridades”, advogou.

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